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Missão Francesa > André Penteado

Por Juan Esteves

Desenvolvido durante viagens realizadas à cidade do Rio de Janeiro entre fevereiro de 2015 e janeiro de 2017, o livro Missão Francesa ( Editora Madalena, 2017) do paulista André Penteado faz parte do seu projeto Rastros, traços e vestígios, no qual o artista “explora fotograficamente acontecimentos da história do Brasil anteriores à invenção da fotografia. Sua ideia é “criar imagens que possam ajudar na reflexão sobre o impacto que estes acontecimentos tiveram na formação da subjetividade brasileira.”

Em um contexto histórico-cultural a subjetividade se refere ao interior do indivíduo. Em uma relação dialética com a objetividade, cuja referência é o exterior, temos então um processo ontológico cujo resultado é uma certa singularidade de cada um, o que certamente nos traz uma visão  autoral destes acontecimentos que o fotógrafo representa fotograficamente em sua busca pelos vestígios que enveredam por um possivel entendimento da nossa identidade, ainda que apenas a linguagem imagética seja limitada para tal empreendimento de notável amplitude.

Entre as imagens, para o leitor não familiarizado com a história, um facsímile de um texto impresso contendo a transcrição de um manuscrito do francês Joachim Lebreton (1760-1819) datado de 12 de junho de 1816, traduzido e comentado pelo historiador carioca Mário Barata (1921-2007) publicado na Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, nº14, de 1959, do IPHAN, no qual discorre sobre o estabelecimento da dupla Escola de Artes do Rio de Janeiro. Os textos foram revelados em comemoração a chegada da Missão Artística Francesa e da vinda de Dom João VI (1767-1826) para o Brasil.

Nas fotografias estão as representações provocadas pelo autor do que teria sido um grande acontecimento histórico-cultural e artístico após 8 anos da fuga de D. João VI de Portugal e a respectiva instalação da sua corte no Brasil, abrindo assim oportunidade para pessoas como Lebreton, que foi administrador das Belas Artes do Ministério do Interior à época do Diretório da Revolução Francesa e que participa do golpe 18 Brumário (1799), início da era napoleônica. Com a Restauração e afastado de seus cargos, desembarca no Rio de Janeiro em 1816, encarregado de chefiar a tal “missão artística”.

As imagens - fragmentos visuais do encaminhamento ou desdobramentos deste acontecimento- captadas por Penteado, se mostram mais diacrônicas como um evento do tempo histórico. Não suscitam imageticamente a evidência da possibilidade sincrônica com o estado atual, embora se aproximem, pelo seu resultado, do sucateamento cultural brasileiro gerado há algumas décadas pelo estado político que atinge seu ápice neste momento.  A discussão pela assimilação de uma política cultural exterior versus uma produção vernacular pode e deve ser levantada, entretanto é preciso ter em mente  que o país onde desembarcam os mestres franceses não havia perdido suas características de pobre colônia, muito pelo contrário.

O autor propõe interessantes conexões conceituais baseado em pinturas, na arquitetura e nas pessoas que, de alguma maneira, estão conectadas ao evento. Nomes como os dos artistas franceses Jean Baptiste Debret ( 1768-1848) eNicolas-Antoine Taunay (1755-1830) se juntam aos do pintor baiano Rodolfo Amoedo (1857-1941) e do artista gaúcho ManuelAraújo de Porto-Alegre (1806-1879). Descendentes destes, como Luiza Maria Taunay da Graça Couto, alunos de pintura da atual Escola de Bela Artes, como Ana Beatriz Ferraz de Farias, ou da graduação de Arquitetura e Urbanismo da FAU/UFRJ entre outras interações genealógicas ou funcionais apreendidas.

A busca por uma representação a partir de um evento histórico ou de uma relação ancestral permeia a história da imagem contemporânea. Sustentada por uma característica vestigial; por ressignificações;  por relações embasadas em metadados, apoiadas ou não em estilemas. Podemos lembrar da série Museum Photographs do alemão Thomas Struth, calcada na observação das pinturas italianas, a proximidade de uma cultura ancestral com a religião em contrapartida as formas em que estas imagens históricas são vivenciadas hoje nos museus. Também difícil não lembrar do americano Richard Misrach e seu Desert Cantos, uma simbologia icônica da precariedade do relacionamento do homem com a natureza, bem como as lembranças macabras do sul africano Pieter Hugo com seus vestígios do genocídio de Ruanda. Todos trabalhos de observação aguda como este feito por André Penteado.

O projeto gráfico criado pela designer russa Ekaterina Kholmogorova, difere radicalmente do apresentado em seu livro anterior ( um conjunto de duas brochuras dentro de um pacote), lembrando um certo romantismo e ar nostálgico, ao seguir como referência as antigas encardenações manuais. A ideia cria um contraponto às fotografias cuja estética está arraigada ao mainstream contemporâneo - debruçado em uma luz direta (e as vezes mais dura) em uma aparente racionalidade, cromatismo recorrente, bem como o distanciamento do preto e branco - já referendado por consagrados produtores como o sueco Lars Tunbjörk (1956-2015) e o canadense Jeff Wall.

André Penteado diz que não é historiador e não tem como objetivo explicar os processos . Sua intenção é “gerar a sensação do presente a partir dos vestígios do passado.” embora, encontre aproximações entre historiadores e fotógrafos: “ambos partem da realidade mas suas construções são sempre ideológicas.” Seu questionamento aqui- embora  anacrônico - `a “importação de matrizes para sanar questões nacionais” ainda se encontra entre as práticas brasileiras, e o que pior, muito além das querelas artísticas.

Missão Francesa não deixa de ser um livro instigante, ainda que seu leitmotiv, a importação da cultura naquele momento, seja discutível ou que as fotografias não se acomodem no que podemos chamar de beleza imagética convencional. No excelente livro O Sol do Brasil ( Cia das Letras, 2008) da antropóloga e historiadora Lilia Moritz Schwarcz sobre a vida e obra do pintor Nicolas-Antoine Taunay, o imaginário francês no Brasil e com o grupo que a historiografia batizou de Missão Artística Francesa, se estabelece uma consistente e conclusiva desconstrução do evento. Para ela, nunca existiu a tal missão nos moldes como foi caracterizada. “D. João VI jamais contratou artistas para sua corte, muito menos artífices do antigo inimigo francês, que forçara a vinda do monarca ao Brasil. Ao contrário, foram os artistas que se autoconvidaram , com o propósito de criar aqui uma Academia igual a que havia no México.”

André Penteado diz que junta imagens e busca uma conexão entre elas, “experimentando relações, em tentativas e erros para formar alguma coerência narrativa.”, o que sem sombra de dúvida acontece. Assim como ele propõe uma captura quase “forense”, seu  Missão Francesa é um exemplo de estruturação como poucos livros. Sua sintaxe é fluida e nos leva a um episódio dos mais interessantes da nossa história, bem como a uma saborosa reflexão que felizmente não depende da sua conclusão, o que, em tempos atuais, raríssimos fotolivros são capazes de provocar.

Imagens © André Penteado; texto © Juan Esteves.

Sobre Juan Esteves
Nascido em Santos, SP, é fotógrafo e jornalista há 30 anos. Escreveu para o caderno Ilustrada da Folha de S.Paulo, onde foi fotojornalista e editor de fotografia. Foi colunista da revista Iris Foto e do portal Fotosite, onde também foi editor, além de colaborar com diversas revistas como a SeLecT, Santa Art Magazine e Fotografe Melhor. Suas imagens já foram publicadas pelas editoras Penguin ( Inglaterra), Rizzoli ( Itállia), Autrement ( França) Editorial Crítica ( Espanha), Rive Gauche (China) e Yale University (EUA) entre outras.

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Outros textos de Juan Esteves: Next > Klaus Mitteldorf e Luz e Sombra > Christian Cravo.
Confira em nossa agenda a exposição "Missão Francesa".

Serviço
Exposição: "Missão Francesa", de André Penteado e curadoria de Moacir dos Anjos.
Datas e horários: Até quarta-feira, 16 de agosto de 2017. De segunda a sexta, das 10h às 19h; sábados, das 11h às 17h.
Local: Zipper Galeria | R. Estados Unidos, 1494 - Jd. América, São Paulo.
Entrada livre e gratuita.

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