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Jogos de Aparência - retratos da aristocracia do açúcar > Georgia Quintas

Por Juan Esteves

O elemento central  da aristocracia do açúcar no Brasil colonial (1530-1822) foi  o senhor de engenho, seguido pelos grandes plantadores de cana,  fornecedores de matéria-prima deste poderoso personagem. Essencialmente instalados no nordeste, contavam com riqueza, prestígio social, influência política e controlavam as capitanias do açúcar instaladas no litoral. Um legado sustentado também por uma pequena burguesia urbana a seu soldo e pelo poder gerado por  suas posses, tanto suas plantações quanto seus escravos.

Jogos de Aparência - Retratos da Aristocracia do Açúcar ( Olhavê, 2016) da curadora e editora pernambucana Georgia Quintas se concentra nas “retóricas fotográficas que envolvem as sutilezas simbólicas de classes sociais de atestação de poder e riqueza” em meados do século XIX e início do XX, mais precisamente no estado de Pernambuco com sua sociedade oligárquica e aristocrática em contraposição à escravidão. É um saboroso extrato de seu doutorado em Antropologia pela Universidade de Salamanca, na Espanha, substanciado por fotografias do acervo da Fundação Joaquim Nabuco, de Recife.

Georgia Quintas trata da representação cultural dos álbuns de família e já alerta em sua apresentação que “pensar a fotografia em sua dimensão social e cultural não se limita a reconhecer na imagem, apenas seus índices, ao que vemos posto em sua perfeita organização pela pose e qualidade técnica fotográfica.” Para ela os retratos de pessoas de uma determinada época sempre dizem mais nos desorientando. Ela recorre ao filósofo francês Pierre Bourdieu (1930-2002): “Compreender adequadamente uma fotografia não é somente recuperar as significações que proclama, é também decifrar o excedente de significação que revela, na medida em que participa dos símbolos de uma época, de uma classe ou grupo artístico.”

Não se assuste leitor pensando que entrará em uma daquelas teses de doutorado gigantescas repletas de citações incompreensíveis em looping e inúmeras notas de rodapé. São pouco mais de 200 páginas contendo apenas uma parte de sua tese apresentada em 2007, que foi trabalhada ao longo desta década para se tornar um livro acessível aos interessados em fotografia, cultura e história brasileira. Mas as tais notas, que tomam apenas 7 páginas, para os mais interessados trazem boas referências para uma pesquisa futura, com nomes de pensadores como o carioca Maurício Lissovsky, os paulistas Davi Arrigucci Junior, Aracy Amaral, Boris Kossoy, Alfredo Bosi, Maria Luiza Tucci Carneiro e Annateresa Fabris; a portuguesa Manuela Carneiro da Cunha; os belgas Etienne Samain e Philipe Dubois, os franceses Roland Barthes (1915-1980) e Marcel Proust (1871-1922) entre outros.

Autora de livros importantes como "Man Ray e a Imagem da Mulher, a vanguarda do olhar e das técnicas fotográficas" (Edição do autor, 2008) e "Inquietações Fotográficas-Narrativas poéticas e crítica visual" (Olhavê +Tempo d’ Imagem 2014), Quintas explica que os retratos provocam o alumbramento de contextos profundos da sociedade brasileira. As vezes, nada melhor que a fotografia para expor, mais do que palavras, uma situação. Uma boa citação escolhida por ela é de um precursor da fotografia, o francês Félix Nadar (1820-1910): “Fotografar era como assistir o parto de uma aparência.”

Em 19 capítulos a antropóloga trata da memória e da identidade; a captura da visão antropológica, bem como suas narrativas; as relíquias da memória visual e o filtro cultural; a análise da representação visual; os significados sociais dos retratos; os reflexos das relações culturais e da manutencão do status; da moda como emblema e identidade e seus signifcados além de estender suas análises para as características da aristocracia agrária, a sua vida social e seus costumes ao espírito da época e contextos históricos da colonização brasileira.

Trabalho de fôlego através da antropologia visual, Georgia Quintas fez uma análise de cerca de 17 mil retratos nos álbuns das famílias abastadas pernambucanas. Ela constata que a produção iconográfica é predominante sobre a vida privada e os ritos de passagem social. Imagens que  enunciam uma história individual e aquelas que preservam a multiplicidade das figuras sociais: “O que se escreve com a imagem é a linha da vida, com todos os pontos relevantes que os referentes fotográficos pretendem eternizar por meio da memória iconográfica”. Um belo apanhado que nos leva a pensar em verdadeiros documentos etnográficos.

Uma timeline da atividade fotográfica pernambucana entre 1833 e 1910 registra nomes de vários fotógrafos, alguns já conhecidos como o francês Theophile Augusto Sthal (1828-1877) e os alemães Karl Ernst Papf (1833- 1910) e Alberto Henschel (1827-1882) este último com imagens no livro, cujos nomes despontam no portal Brasiliana Fotográfica da Biblioteca Nacional. Outros também muito conhecidos, como o carioca Marc Ferrez (1843-1923) e o francês Victor Frond (1821-1881) além do português Christiano Junior (1832-1902) são citados quando o assunto é a questão das diferenças sociais entre negros e brancos. Ela aponta que este último produziu a mais ampla e emblemática produção de retratos de escravos brasileiros no século XIX: “a iconografia realizada por ele tem a particularidade de ser um documento etnográfico valiosíssimo da sociedade escravagista.”

Outro dado interessante levantado por Georgia Quintas é a diferença entre os gêneros no tratamento dos retratos. Para ela havia um presdisposição social a registrar antagonicamente homens e mulheres. Ela alerta que a questão já foi discutida em outros campos como a Antropologia, História e a Sociologia e deve ser submetida a análise da composição e do contexto visual pela ferramentas da semiótica. As diferentes maneiras de compor uma imagem validam o processo de distinção social sobre a representação fotográfica para a situação de gênero. Ela anota que os retratos são carregados de sentidos íntimos para sexualidade, imagens vinculadas as convenções da época, paradigmas que influenciam de maneira contundente a composição e, principalmente, a direção da cena fotográfica.

As imagens reproduzidas no livro são oriundas da Coleção Francisco Rodrigues de Fotografias, da Fundação Joaquim Nabuco, um precioso conjunto que mostra a variedade étnica e social do Brasil Império e das 5 primeiras décadas da República. A Coleção foi montada pelo cirurgião dentista Francisco Rodrigues (1904-1977). Para a antropóloga elas permitem fazer uma análise comparativa entre os aspectos sociais da "sociedade do açúcar”. Ela lembra da fotógrafa e pensadora alemã Gisèse Freund (1908-2000) para quem “cada momento histórico presencia o surgimento de específicas formas de expressão artística, que correspondem ao caráter político, aos modos e aos gostos da época.”

Imagens © autores / Texto © Juan Esteves

Lançamento: Dia 2 de setembro de 2017, a partir das 10hs. Até às 14hs.
Local: Atelier Mariana Tassinari | Rua Lemos Conde, 36 - Alto de Pinheiros, São Paulo. 

Sobre Juan Esteves
Nascido em Santos, SP, é fotógrafo e jornalista há 30 anos. Escreveu para o caderno Ilustrada da Folha de S.Paulo, onde foi fotojornalista e editor de fotografia. Foi colunista da revista Iris Foto e do portal Fotosite, onde também foi editor, além de colaborar com diversas revistas como a SeLecT, Santa Art Magazine e Fotografe Melhor. Suas imagens já foram publicadas pelas editoras Penguin ( Inglaterra), Rizzoli ( Itállia), Autrement ( França) Editorial Crítica ( Espanha), Rive Gauche (China) e Yale University (EUA) entre outras. (foto: Ernest Hemingway escrevendo © Paris Review) uma homenagem ao grande autor.

Conheça o blog do Juan Esteves e confira as novidades em sua pagina no Facebook.

Outros textos do autor: Luz e sombra > Chiristian CravoNext > Klaus Mitteldorf e Odires Mlászho.

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