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Desprezados por 20 anos, cavaletes de Lina Bo Bardi voltam ao Masp

"Lembro de, adolescente, visitando um museu europeu pela primeira vez, ter ficado chocado com a forma como as obras eram expostas, tão distantes, na parede, uma faixa de segurança nos separando delas. Para quem era criança na São Paulo dos anos 1980, museu era isso aqui", diz o curador Fernando Oliva, apontando para a pinacoteca do Masp, onde obras flutuam sobre estruturas de vidro.

Formados por uma base de concreto e uma chapa transparente, os icônicos cavaletes de cristal foram desenhados pela arquiteta Lina Bo Bardi (1914-1992) em 1968, junto ao prédio que hoje abriga o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, na avenida Paulista.

Retirados do museu em 1996, os cavaletes de vidro temperado –o cristal foi licença da autora– retornam nesta sexta (11), em mostra do acervo permanente chamada "Acervo em Transformação", que deve ficar em cartaz por pelo menos cinco anos.

"É tudo parte do mesmo projeto", explica o arquiteto Marcelo Ferraz, pupilo de Lina. "Assim como o museu, com o seu vão livre, flutua sobre a cidade, as obras flutuam sobre a pinacoteca, numa ousadia expográfica que ainda hoje arrepia", diz.

Lina pensou o vão livre do Masp como uma espécie de varanda metropolitana, um ponto de encontro ideal para grandes grupos. Amplo, aberto, protegido da chuva e do sol. Não à toa, boa parte das manifestações da cidade se concentra nesse vão. Comunista, a arquiteta criou um espaço público dado à agregações. Debaixo de um museu. Em ano de AI-5, o ato que endureceu a ditadura militar.


Pinacoteca do Masp, no 2º andar do museu, onde ocorrerá a nova mostra; Diego Padgurschi/Folhapress

Se por fora o prédio fazia um convite a aglomerações, por dentro ele rompia a lógica museológica europeia, que previa quadros na parede, distantes do público e bem hierarquizados. "Numa exposição convencional, seu olhar é guiado pela curadoria. Há uma ordem a ser seguida e dados contextuais como o nome do artista e sua origem fisgam o olhar", explica Tomás Toledo, outro dos curadores da mostra (são quatro: Toledo, Oliva, Luiza Proença e Adriano Pedrosa, este diretor artístico do Masp).

No modo de expor de Lina, o público é lançado a um labirinto de obras postas em pé de igualdade. Num primeiro contato, tudo que o espectador vê é o quadro em si. Somente no fundo da obra é que podemos encontrar o nome do artista. "Te desafia a formar uma opinião própria antes", diz Pedrosa.

Novo cavalete de vidro do Masp
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JEITINHO

Se é verdade que os cavaletes se inserem num movimento internacional de rupturas, é preciso conceder que ninguém foi tão radical quanto Lina. "Até hoje, os museus tentam especulações formais na fachada, mas dentro é sempre cubo branco [forma de expor que isola a obra de arte]", diz Giancarlo Latorraca, diretor técnico do Museu da Casa Brasileira e curador da mostra "Maneiras de Expor: Arquitetura Expositiva de Lina Bo Bardi" (2014).

Para além de responder a um anseio da época por dessacralizar a arte, Lina tinha um problema local para resolver. "O acervo do Masp era e ainda é cheio de lacunas", diz Oliva. "Não é como um grande museu europeu, que enche salas inteiras com obras de uma só escola."

A apresentação proposta por ela permite uma curadoria como a atual, que mistura artistas menos consagrados, como Maria Auxiliadora e Djanira, a obras canônicas, como as de Goya e Tintoretto. "Aqui o quadro não é visto isoladamente, mas em relação a seus pares", observa Toledo. "Você vê a 'Moema' de Vitor Meirelles em relação àquele Manet ao fundo, ao Cézanne", conclui.

As informações são da Folha de S.Paulo

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