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Blog do Juan Esteves: Rio > Rafael Duarte

por Juan Esteves

Rio de Janeiro, cidade  cantada por grandes compositores como Tom Jobim (1927-1994) e celebrada em prosa por escritores como o inglês Sir Richard Francis Burton (1821-1890). Um do lugares mais fotografados do planeta e sem dúvida um desafio e tanto para quem veio depois de um fotógrafo carioca chamado Marc Ferrez (1843-1923) (leia review sobre o trabalho de Ferrez) uma comparação certamente injusta pelo seu pioneirismo e genialidade.

Igualmente lembramos de autores mais contemporâneos como os cariocas Cesar Barreto e seu livro Rio Pitoresco e Renan Cepeda com Rio Infravermelho, ambos publicados pela Ed.Casa da Palavra em 2013 e até mesmo o Robert Polidori, canadense radicado nos Estados Unidos (leia review sobre o livro Rio [IMS, 2015]) entre tantos outros que se aventuraram nessa difícil tarefa de registrar uma paisagem praticamente institucionalizada pela arte internacional.

É no espaço mais contemporâneo que as imagens captadas pelo também carioca Rafael Duarte se acomodam no livro RIO (Editora Bambalaio, 2018), publicação impressa em papel italiano Garda Kiara pelo processo Full Black*, que traz também texto do paulista Sergio Burgi, coordenador de fotografia do Instituto Moreira Salles e especialista em imagens históricas do Brasil e em Marc Ferrez. O livro é uma ousada ideia de documentar lugares já conhecidos “revelando ângulos inusitados.”

Como inspiração o autor se sustenta no eclético trio de consagrados nomes como o próprio Ferrez, Sebastião Salgado e o californiano Ansel Adams (1902 -1984), figura de grande destaque no cânone da imagem de natureza. Sua busca foi por uma angulação mais improvável, como por exemplo a partir do braço da estatua do Cristo Redentor, com um percurso balizado pela “lógica do descobrimento e da ocupação urbana.“ Para tanto fez uso de transportes alternativos como asa delta, o bondinho de carga no Pão de Açucar, um barco a remo, um veleiro, um avião e até a bicicleta entre outros.

 Sergio Burgi salienta em seu texto de apresentação que quase metade da obra de Ferrez trata do magistral registro do Rio de Janeiro, "reagindo estética e formalmente de forma brilhante a singularidade da  paisagem urbana moldada entre o oceano e a montanha.” Ainda segundo ele, suas imagens revelam um percurso e deslocamento de um olhar livre que registra a expansão e desenvolvimento da cidade que hoje ainda vemos. Para o curador do IMS, apropriar-se imageticamente hoje é uma iniciativa corajosa e de ruptura de barreiras reais e simbólicas, uma busca de uma “representação abrangente e holística desse espaço comum a todos” que se configura no trabalho de Rafael Duarte.

O livro, dividido geograficamente, traz  links com filmes através de QR codes e almeja esta proposta diferenciada, como a já citada imagem do Cristo, mas deixa alguns gaps mais convencionais, como as tradicionais visões através de árvores ou os planos superiores e outros no nível do mar, também encontrados em profusão no repertório do assunto. Entretanto estes são superados por fotografias que trazem certo frescor à já falada imagem institucional de mais de um século de prática, não somente no meio fotográfico mas no âmbito mais amplo da arte, quando lembramos das belas aquarelas do inglês Charles Landseer (1799-1879) ou litografias do alemão Johann Moritz Rugendas (1802-1880).

 Rafael Duarte procurou  fotografar de uma maneira mais incomum do que a população vê os lugares conhecidos como a Baía da Guanabara, as silhuetas das montanhas vistas de Niterói, Floresta da Tijuca e o centro antigo. Ele vai da zona Norte à zona Sul, incluindo também o Parque Estadual da Pedra Branca, na zona Oeste, anexando a ideia de unir o antigo e o novo através do próprio desenvolvimento da cidade.

O Rio atual não é mais aquele comentado por Sir Burton em seu livro Explorations of the Highlands of the Brazil, onde descreve sua viagem partindo do Rio de Janeiro para as Minas Gerais, Bahia, Alagoas e Sergipe, empreendida em 1867, cujos dois volumes ganharam no ano passado uma nova edição pela Creative Media Partners. Para o célebre aventureiro que desvendou o Oriente Médio e a África ao Ocidente no século XIX, a visão da baía da Guanabara foi uma das mais lindas que viu na vida. Portanto temos outra possibilidade nestas imagens atuais, não tanto como ela surpreende pelo inusitado mas sim pela “simbiose” entre natureza e sobrevivência humana.

Certamente a parte urbana da cidade, ainda que edificada em meio ao caos, se incorpora na bela paisagem, como a visão da favela do Cantagalo e Ipanema com as ilhotas Cagarras ao fundo. Em contrapartida, o fotógrafo em sua expedição produz uma visão privilegiada da praia restrita do Forte Copacabana. Ele também incorpora em suas imagens detalhes dos meios que utiliza para fotografar,  como os cabos do bondinho na Urca, um detalhe da asa delta onde voa, um pedaço do motor do avião, os rastros da hélice do barco ou simplesmente os remos do skiff tocando a água da Lagoa Rodrigo de Freitas, que faz o primeiro plano para o belíssimo morro do Corcovado.

Como inclusão, há a busca pelo posicionamento da câmera que instiga o leitor a desvendá-lo, aventura que fica mais fácil com os filmes com acesso pelo QR codes. Igualmente a ideia da escala elaborada através da inserção de alguns personagens ou edifícios icônicos em meio a monumental paisagem, reafirmam o fator preservacionista, o que fica claro quando vemos o Estádio do Maracanã, quase imperceptível na malha urbana compacta e irrespirável, tomada do alto do Pico do Andarai Maior, ou o Estádio Nilton Santos, o “Engenhão”, no bairro do Engenho Novo, ambos a partir da Tijuca Mirim, Parque Nacional da Tijuca.

Nem sempre o Rio é notícia pelos seus atributos naturais, infelizmente. Mas sem dúvida, são estes que desde a colônia estimulam exploradores, artistas e documentaristas a registrá-los. Pelos seus cálculos, Rafael Duarte já passou por 250 cidades em 30 países somente na última década, muitos deles onde já mostrou seus trabalhos em diversas exposições. Como nativo, deixa claro seu apego a paisagem e sua publicação se soma ao necessário movimento preservacionista. Melhor ainda, através de um belo portfólio que em vez de um réquiem torna-se uma ode à cidade maravilhosa.

Imagens © Rafael Duarte. Texto © Juan Esteves

*Full Black e o papel italiano Garda Kiara são produtos exclusivos da Gráfica Ipsis no Brasil.

Sobre Juan Esteves
Nascido em Santos, SP, é fotógrafo e jornalista há 30 anos. Escreveu para o caderno Ilustrada da Folha de S.Paulo, onde foi fotojornalista e editor de fotografia. Foi colunista da revista Iris Foto e do portal Fotosite, onde também foi editor, além de colaborar com diversas revistas como a SeLecT, Santa Art Magazine e Fotografe Melhor. Suas imagens já foram publicadas pelas editoras Penguin ( Inglaterra), Rizzoli ( Itállia), Autrement ( França) Editorial Crítica ( Espanha), Rive Gauche (China) e Yale University (EUA) entre outras.

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