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Interiores, retratos [e paisagens]

Artistas: Luiz Braga

Curadoria: -

De 17/8 a 28/9

Galeria Leme/AD Ver mapa

Endereço: Avenida Valdemar Ferreira, 130 - Butantã

Telefone: (11) 3093-8184

Galeria Leme/AD recebe, entre os dias 17 de agosto e 28 de setembro de 2019, a quarta exposição individual do fotógrafo Luiz Braga em seu espaço. A mostra "interiores, retratos [e paisagens]", que possui entrada livre e gratuita, é acompanhada por texto de Tadeu Chiarelli. A abertura acontece no sábado (17/8), das 14h às 17h.

Luiz Braga, Mesas em azul, 2019. Fotografia digital impressa em pigmento mineral sobre papel de algodão, 70 x 105 cm.

Confira o texto de Chiarelli sobre a mostra e o trabalho do fotógrafo paraense:
"O que me dirige quando observo as fotos de Luiz Braga? Em primeiro lugar, o tratamento que o fotógrafo dá à luz: o que marca seu trabalho, me parece, é a maneira como ele constrói suas imagens pelo contraste (ora sutil, ora marcado) entre a luz artificial e a luz natural, fato que faz gerar uma gama de cores capaz de causar naquele que observa suas imagens, uma sensação de familiaridade e estranhamento. Isso porque é nessa operação que Braga desnaturaliza a 'verdade' fotográfica, é quando denuncia sua dimensão artificial.

Há anos o artista aprofunda essa indagação sobre a imagem fotográfica, enfatizando sua construção postiça. Num primeiro momento são notáveis seus esforços nesse sentido, a partir da realização de recortes drásticos nos objetos a serem fotografados, reduzindo-os a formas “puras” e descontextualizadas que enfatizam a lógica interior do enquadramento escolhido, dele retirando os elementos mais notórios do seu tempo e lugar. Camburões coloridos, 1976, é exemplar neste sentido. Ali, o que rege a autenticidade da imagem não é seu contexto: não importa se ela foi feita em Belém do Pará ou em Belém, na Palestina, pois o que conta, no resultado final, é a coerência interna das formas em relação à luz e às cores. Foi produzida em Belém do Pará? Isso é um detalhe 'extraquadro', uma curiosidade para quem gosta de tecer narrativas em volta das imagens.

Luiz Braga, Paisagem emoldurada, 2014. Fotografia digital impressa em pigmento mineral sobre papel de algodão, 70 x 105 cm. 

No transcorrer de sua trajetória enquanto fotógrafo, Braga optou também por outras estratégias, no sentido de desnaturalizar a 'veracidade fotográfica', e um deles foi não seguir as instruções da indústria para o uso de determinados tipos de filmes. Árvore em Mosqueiro, 1991, demonstra bem esse procedimento: produzida em franca desobediência às prescrições da indústria, frente àquela imagem não experimentamos as “cores do norte” ou a “luz de Mosqueiro” etc., mas, sim, a luz e as cores do filme fotográfico instrumentalizadas pelo artista para que a imagem ganhasse autonomia em relação ao referente.

Mas tudo isso foi antes do advento/espraiamento da fotografia digital. Tendo aderido a essa nova tecnologia, como era de se esperar, Braga buscou agregar à sua poética as possibilidades desse novo meio. Assim, se antes o artista conseguia os efeitos tão característicos de suas imagens por meio do uso “indisciplinado” dos filmes à venda nas melhores casas do ramo, a partir de então, ele irá buscar tais resultantes na deturpação dos dispositivos previamente estabelecidos nas câmeras digitais.

Luiz Braga, Timão vermelho, 1986. Fotografia em filme dispositivo em cores, digitalizado e impresso em pigmento mineral sobre papel de algodão, 70 x 105 cm. 

Ficaram conhecidas as imagens que Braga produziu usando livremente o procedimento nightvision, transformando, sobretudo a paisagem do Pará, em cenas gélidas e paralisadas no tempo – paródias mais do que irônicas à busca incessante do 'very typical', com o qual muitos fotógrafos ainda querem adjetivar suas produções relativas a um Brasil profundo e de tudo destituído. Igarapé do Macaco, 2007, é um bom exemplo desse momento: uma 'típica' paisagem nortista (existe algo mais 'nortista' do que um igarapé?) transformada em um lugar álgido, lembrança de uma expedição polar, ou de um sonho quase pesadelo. Paraíso tornado pura distopia, recuperando, assim – e de maneira invulgar –, a necessidade de Braga de, novamente, afastar-se do referente, dificultando a perseverança da crença do espectador no mito da verdade fotográfica.

'Luiz Braga: interiores, retratos [e paisagens]' se constitui por aquele outro eixo da produção do artista em que a manipulação discreta do meio fotográfico vem apenas realçar a capacidade do artista em operar com a luz e as cores, em situações ora sutis, ora bem marcadas. Para enfatizar essas características a opção foi por retratos e cenas de interior porque é justamente nesses tipos de fotos que o sentimento de comunhão entre o fotógrafo e o indivíduo, ou com o lugar retratado, alcança um dos momentos mais proeminentes da sua trajetória.

Luiz Braga, Casa de farinha, 2013. Fotografia digital impressa em pigmento mineral sobre papel de algodão, 70 x 105 cm. 

Das cenas de interiores foram privilegiadas aquelas em que as pessoas, (quando aparecem), são captadas desenvolvendo atividades, (ou simplesmente em descanso), num primeiro plano mais sombrio, resguardado e o ambiente externo, repleto de luz. Nas cenas vazias, paradoxalmente, a presença dos habitantes dos lugares impregna tudo: a ordenação dos objetos, o cuidado com os mínimos detalhes, tudo recriado pela luz, pela saturação de uma ou outra área da imagem, o que revela, mais uma vez, a empatia do fotógrafo com o entorno e seus ocupantes.

Tal empatia apresenta-se também nos retratos exibidos: neles os personagens surge sempre envolvido numa solenidade grandiosa, mesmo quando parece absorto numa ação ou em um pensamento. Ao retratá-los, Braga como que os abraça em sinal de respeito e comunhão. Porém, mesmo que essa vontade de união tenda a transparecer em todos os retratos, Braga parece não se esquecer de que o que produz não é a mera captação do real, ou de seus sentimentos para com os retratados, mas a recriação de todos esses fenômenos enquanto linguagem.

Creio que nesta exposição o artista é 'flagrado' (para usar uma metáfora fotográfica) num outro momento alto de sua carreira, um momento em que sua habilidade ficou revestida de maestria, pelo tanto de trabalho, pelo tanto que usou do seu olhar crítico em relação à imagem fotográfica e sua empatia pelo o que fotografa. Tal maestria, no entanto, não significa cristalização de procedimentos ou acomodação frente aos bons resultados alcançados.

Tendo em vista a dimensão exploratória que Luiz Braga confere ao seu processo fotográfico, devemos esperar outros encaminhamentos para o devir de sua obra. Aguardemos."

Luiz Braga, Rabeta na chuva, 2019. Fotografia digital impressa em pigmento mineral sobre papel de algodão, 70 x 105 cm. 

Serviço
"Interiores, retratos [e paisagens]", individual de Luiz Braga.
Datas e horários: Abertura dia 17 de agosto, das 14h às 17h. Em cartaz até 28 de setembro de 2019. De terça a sexta-feira, das 10h às 19h; sábado, das 10h às 17h.
Local: Galeria Leme/AD | Av. Valdemar Ferreira, 130 - Butantã, São Paulo.
Entrada livre e gratuita.