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Flávio de Carvalho: o antropófago ideal

Artistas: Flávio de Carvalho

Curadoria: Kiki Mazzucchelli

De 17/8 a 19/10

Almeida & Dale Galeria de Arte Ver mapa

Endereço: Rua Caconde, 152 - Jardim Paulista - São Paulo - SP CEP 01425-011

Telefone: (11) 3887-7130

Galeria Almeida e Dale recebe em seu espaço, entre os dias 17 de agosto e 19 de outubro de 2019, exposição que apresenta a extensa obra do artista Flávio de Carvalho (1899-1973), uma das mais importantes referências da vanguarda brasileira do Séc. XX. Com curadoria de Kiki Mazzucchelli, a mostra "Flávio de Carvalho: o antropófago ideal" foi originalmente apresentada na Sotheby’s S2 Gallery, em Londres, em abril deste ano, sendo a primeira exposição individual dedicada ao artista no Reino Unido, país onde viveu de 1914 a 1922. Com uma seleção de obras que oferece um panorama esclarecedor da trajetória multidisciplinar de Flávio de Carvalho - cobrindo cinco décadas de sua produção -, a mostra tem entrada gratuita. Para marcar a abertura da exposição, que acontece no sábado, 17 de agosto, às 10h, o Teatro Oficina faz uma apresentação única de trecho da peça O Bailado do Deus Morto, escrita por Carvalho em 1933.

Flávio de Carvalho, Sem título, 1965. Tinta sobre papel, 47 x 66.5 cm. 

Cerca de cinquenta trabalhos, entre desenhos, pinturas, ilustrações, materiais de arquivo e documentação dos projetos imateriais do artista, representam sua diversidade de meios de expressão e sua inestimável contribuição para a ampliação das possibilidades do fazer artístico.

Entre os destaques, está o conjunto de retratos de alguns nomes significativos que acompanharam Carvalho em sua trajetória artística, formado por pinturas e desenhos cujas linhas expressivas que visam a capturar o estado psicológico de seus modelos. Também chamam atenção os projetos arquitetônicos apresentados pelo artista em concursos nacionais e internacionais. Considerado um dos pioneiros da arquitetura moderna no Brasil, Carvalho, em seus projetos, combinava uma linguagem futurística a elementos alegóricos e decorativos, evidenciando seu interesse por temas ligados à etnologia, à psicanálise e à antropofagia.

“Flávio de Carvalho é uma das figuras mais interessantes da vanguarda brasileira do século XX. Seus projetos de cunho conceitual atestam seu extraordinário feito de expandir o campo da arte para além de territórios e formas conhecidos, ampliando assim a própria definição daquilo que pode ser considerado arte”, comenta Kiki.

Flavio de Carvalho, Figura de Homem – Retrato de Wilfred R. Bion (Figure of Man - Portrait of Wilfred R. Bion), 1973. Óleo sobre tela, 90 x 67 cm.

New Look
Em 1931, Flávio de Carvalho realiza sua primeira intervenção no espaço público; a Experiência n.2, na qual caminhou contra o fluxo de uma procissão de Corpus Christi nas ruas do centro de São Paulo, o que, talvez, seja o primeiro registro de uma performance no Brasil.

Em 1956, quase aos 60 anos de idade, o artista desfilou pelas ruas de São Paulo vestindo um blusão bufante, uma saia plissada e sandálias, um traje projetado, segundo ele, para servir como alternativa ao padrão do terno e gravata e libertar o homem tropical do desconforto causado por estilos de moda importados da Europa. Acompanhado por uma extensa cobertura de imprensa organizada por ele próprio e que pode ser observada em algumas das fotografias presentes nesta exposição, Flávio de Carvalho batizou a obra de New Look (Experiência n.3). As vantagens funcionais da vestimenta foram impressas em um anúncio criado pelo artista, trazendo afirmações mais razoáveis como sua capacidade de minimizar a transpiração excessiva até alegações mais inverossímeis, como sua virtude de evitar guerras devido ao uso de “cores vivas (que) substituem desejos de agressão”.

Segundo a curadora KiKi Mazzucchelli, “a obra é um projeto exemplar de Carvalho, na medida em que combina o experimentalismo utópico a uma abordagem calcada no racionalismo, metodologia que utilizou em várias ocasiões para desmistificar as crenças e convenções dominantes.”

Flávio de Carvalho, Experiência n.3, 1956. Arquivo CEDAE - IEL, Universidade Estadual de Campinas, São Paulo. 

O “revolucionário romântico” ou o “antropófago ideal”
Cunhado por Le Corbusier após um encontro com Carvalho em 1929, para definir sua prática artística visionária e multimodal, o primeiro termo é o mais usado por críticos, mas, talvez, seja insuficiente para capturar o caráter idealista e inventivo do conjunto de sua obra. A segunda definição, supostamente creditada a Oswald de Andrade, autor do reconhecido “Manifesto Antropofágico” (1928), pode revelar mais sobre sua prática.

Segundo o biógrafo J. Toledo, em Flávio de Carvalho: o comedor de emoções, Oswald de Andrade assim o exaltou em 1930, à época do IV Congresso Panamericano de Arquitetura, no Rio de Janeiro. Na ocasião, Flávio de Carvalho apresentou um ensaio intitulado A cidade do homem nu, seu plano diretor para uma nova metrópole nos trópicos que seria destituída de Deus, propriedade e casamento, numa proposição extremamente ousada em um contexto cultural ultraconservador.

O Bailado do Deus Morto
O Teatro Oficina realiza apresentação única de trecho da peça escrita por Flávio de Carvalho em 1933, O Bailado do Deus Morto, no dia 17 de agosto, às 11h30. A obra discorre sobre a tragédia da morte de deus e apresenta a vida criativa do homem livre de mitos. Com direção de Marcelo Drummond, os 12 atores da Companhia encenam com a musicalidade característica do Oficina e vestem as réplicas das máscaras criadas por Flávio. Após a encenação, as máscaras serão expostas para o público na mostra individual.

Conjunto de casas da Alameda Lorena, 1936-38. Foto: Leonardo Crescenti.

Sobre o artista
Pintor, escultor, arquiteto, cenógrafo, designer, jornalista, escritor e dramaturgo, Flávio de Carvalho nasceu no Rio de Janeiro, em 1899. Reconhecido por investigações de vanguarda na arte performática, Carvalho usou seus muitos talentos e formas excêntricas e irreverentes de expressão para chocar a burguesia. Inovou ao adotar novas mídias, destacando-se por suas inovações no campo do teatro e suas performances artísticas, abrindo caminho para as novas tendências que se desenvolveram no Brasil a partir dos anos 1960.

Aclamado na Europa Ocidental, na URSS e nos Estados Unidos, seus retratos expressionistas de personalidades estão em acervos de importantes museus em Nova York, Paris, Roma, Moscou, além de São Paulo e Rio de Janeiro. Apesar de ter recebido atenção significativa da mídia ao longo de sua carreira, a obra de Carvalho constantemente se chocou com o conservadorismo dominante, em uma época em que não havia museus dedicados à arte moderna no país (o primeiro deles, o MASP, foi fundado apenas em 1947). Assim, materiais de arquivo e de documentação relevantes para a reconstrução de sua trajetória artística acabaram sendo dispersados em diferentes coleções públicas e privadas. A exposição apresentada na Almeida & Dale visa contribuir para a contextualização e reavaliação da obra de Flávio de Carvalho, e será acompanhada de um catálogo contendo textos inéditos que abordam temas significativos para uma melhor compreensão de seu papel fundamental na historiografia da arte brasileira.

Ilustração do livro Experiência n.2, 1931. Foto: Leonardo Crescenti. 

Serviço
"Flávio de Carvalho: o antropófago ideal", com curadoria de Kiki Mazzucchelli.
Datas e horários: Abertura dia 17 de agosto, sábado, às 10h. Em cartaz até 19 de outubro de 2019. De segunda a sexta-feira, das 10h às 19h.
Local: Galeria Almeida e Dale | Rua Caconde, 152 - Jardim Paulista, São Paulo.
Entrada gratuita.
O Bailado do Deus Morto, com direção de Marcelo Drummond / Teatro Oficina.
Dia e horário: DIa 17 de agosto, sábado, a partir das 11h30.
Duração: 20 minutos.
Classificação livre.