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ODIRES MLÁSZHO

 Por Juan Esteves. 

A melhor definição para o trabalho do paranaense José Odires Micoski, conhecido como o artista Odires Mlászho, é dele mesmo: Existe um amplo espectro de linguagens que as mídias contemporâneas utilizam. Portanto, é de sua natureza a grande possibilidade de intervenções. Ele se diz valer da ampla oportunidade desse universo “inusitado e em expansão” atuando de diferentes maneiras, percurso que considera nobre diante das incontáveis maneiras de criar. 

ODIRES MLÁSZHO (Cobogó, 2016) reúne em um só livro sua instigante produção que tem como escopo a reutilização da fotografia apropriada. São 110 obras reproduzidas que cobrem sua produção desde a década de 1990 onde o artista se vale de registros fotográficos, documentos antigos, mapas e tipografias. Sua construção pode tanto ser, como define ele, prosaica quando se trata de recortes e colagens, mas também mais complexa através de uma metodologia pessoal de várias técnicas como escarificação, serpentina, camouflage e descolagem, no que ele diz estarem incluídas na sua “cátedra cirúrgico- poética.”


Embora o uso da colagem remonte à invenção do papel na China, por volta de 200 a.C,  ela ganhou fôlego com o artista francês Georges Braque (1882-1963) e o espanhol Pablo Picasso (1881-1983) no movimento cubista na primeira década do século XX. Continuou no movimento dadaísta com o americano Man Ray (1890-1976) e o alemão Kurt Schwitters (1887-1948). Este influenciou os produtores da escola alemã Bauhaus (1919-1933) onde  atuou o genial húngaro László Moholy-Nagy (1895-1946), de quem, certamente, foi emprestado o sobrenome artístico  de Odires Mlászho.

Diante destas influências e das metodologias criadas por Mlászho, natural que o livro comece por um glossário criado por ele, que permite ao leitor compartilhar da melhor maneira suas complexas criações. Traz os elementos presentes em sua obra e seus procedimentos de intervenção que modificam os materiais ou objetos usados como suportes. 

“Replicados de forma constante, os procedimentos se transformam segundo o desenvolvimento de uma matriz de pensamento e vão se interligando por um fluxo de intenções plásticas que tem um eixo central comum.” Eles vão descrever, ainda segundo o artista, um conjunto de técnicas interligadas, em expansão, que compõem a sua identidade. A excelente entrevista feita pela curadora e crítica de arte Ana Paula Cohen, completa o guia de navegação por uma potente obra que reúne não somente uma questão estética marcante, mas conteúdos ontológicos que felizmente se distanciam da geléia geral que se transformou a imagem fotográfica dita conceitual.

Entrando no universo do artista, temos seu repertório, com as séries Retratos Ancestrais, que trazem retratos de políticos, anônimos, celebridades, personagens históricas. Em Terra Devastada, paisagens que atravessam calamidades, tempestades, guerras e revoluções. Língua das Pedras, a compactação da escrita; Ritos Monásticos, movimentos que exigem disciplina e ritmo e Sinais de Encruzilhadas onde surge a prospecção por camadas, entre outras coisas. Como vemos, as intersecções não são poucas. 

O autor parte de elementos da linguagem visual e escrita já impressos, publicados em livros, revistas e enciclopédias. Para a curadora Ana Paula Cohen, nos recortes e colagens vemos o surgimento de novos universos criados pelo artista, novas linguagens e múltiplos caminhos que se desdobram em narrativas e personagens. Há uma ressignificação e atualização em cada obra que demanda a coleta em sua prática, o que para Mlászho consiste em seu primeiro impulso que acaba por definir a natureza específica de suas obras: “coletar significa reunir matéria-prima, identificar os modos de atuação que estão presentes em cada elemento. Extrair dessa latência a adequação dos procedimentos possíveis, viáveis e necessários” conta ele.

Ainda em seu glossário estão os procedimentos e técnicas: a assemblage, na justaposições de objetos que criam uma nova sintaxe. A camouflage,cortes sinuosos sobre imagens fragmentadas e subsequente reconstrução por entrelaçamento; o corte e torção, a combinação de cortes e formas geométricas sobre o papel plano, com variações de torção; a escarificação, uma transferência a seco, não térmica com transporte de tintas em linhas paralelas por meio de marcações entre um original e um suporte receptor; esfoliação, extração seletiva ou remoção parcial de tinta e da polpa do papel. flaps, condensamento integral de um livro em tiras sobrepostas; letras transferíveis, a conhecida Letraset; a serpentina, cortes estreitos e paralelos que percorrem a imagem em uma única entrada de tesoura e, claro, a colagem, uma composição com recortes ou fragmentos ordenados por aproximações e/ou sobreposições.

Não há dúvida que o trabalho da coleta é essencial para o artista que se apropria e ressignifica conteúdos já produzidos.  Para Mlászho, a  identificação do parentesco entre os objetos é algo que tem várias origens. Ele parte de um fator intuitivo que sofre um refinamento inevitável, tomando o cuidado que este não esvazie a energia original que dará início a execução da obra. “ Trata-se de uma dinâmica entre estas duas potências: intuição e intuição refinada.”

O contato com a obra do artista tcheco Jiří Kolář (1914-2002) durante uma exposição de colagens no MAC-USP, em 1988, intensificou no artista sua noção da possibilidade de criar um repertório próprio a partir de procedimentos simples. Ele considera a colagem um técnica revolucionária, apesar de tradicional, pois contém uma peculiaridade que permite ampliar, dentro de um universo pleno, novas diretrizes. “é um ambiente bastante promissor para incidência da experimentação.

O pesquisador e curador paulista Rubens Fernandes Junior, já escreveu que a obra de Mlászho “aponta, paradoxalmente, para a busca do reconhecimento na seqüência sem fim e sem tempo de outros olhares. Percebe-se a transfiguração das formas nos padrões recriados a partir de pedaços de imagens recolhidas nos velhos sebos de São Paulo.” Para ele, o trabalho do artista"invade nossa racionalidade atenta e destrói qualquer análise. Já o curador paulistano Eder Chiodetto, mais romântico, afirma que “Um objeto cortante na mão de um homem obstinado pode causar ferimentos e dor. Quando a obstinação é de um artista e o ferimento uma cicatriz numa fotografia, a dor pode ser mais intensa.” 

Se ambos curadores descrevem o quão fascinante um caminho artístico de estofo pode nos tocar, o do autor, reflete também a sua convivência por mais de uma década como assistente do artista santista Mário Gruber (1927-2011), gravador e pintor de renome internacional, cujo virtuosismo e busca pela excelência gráfica obsessiva parece emparelhar com a práxis de Mlászho. Em seus trabalhos fica explícito o amálgama da racionalidade (a pesquisa intensa, o acúmulo dos critérios de construção; o conteúdo mais objetivo embutido nos livros reutilizados)  e da emoção (a beleza plástica das imagens, as construções dinâmicas e ontológicas,  a expansão para além da imagem fotográfica em assemblages e instalações, a plenitude da forma).

Odires Mlászho ao se apropriar das imagens e textos questiona as circunstâncias ordinárias e circunscritas aos materiais que se serve contrapondo-os à complexidade da construção de suas criações que se escoram em uma estética que não critica a continuidade do objeto original, mas sim alude as relações encontradas e as vezes dicotômicas entre a função e a forma deles, bem como o caráter de expansão que elas acabam por propor.

Para além das fotografias, o livro traz obras que também remetem ao universo tipográfico, como os Livros cegos e Livros esqueletos, de 2013, mostrando a amplitude de um artista cuja obra consistente e inquieta pertuba o modorrento estado da tal imagem contemporânea. O belo projeto gráfico é da premiada designer Elaine Ramos, assistida por Lívia Takamura. Impressão em papel Munken Linx, pela Ipsis Gráfica e Editora.
Imagens © Odires Mlászho   Texto © Juan Esteves

Sobre Juan Esteves:
Nascido em Santos, SP, é fotógrafo e jornalista há 30 anos. Escreveu para o caderno Ilustrada da Folha de S.Paulo, onde foi fotojornalista e editor de fotografia. Foi colunista da revista Iris Foto e do portal Fotosite, onde também foi editor, além de colaborar com diversas revistas como a SeLecT, Santa Art Magazine e Fotografe Melhor. Suas imagens já foram publicadas pelas editoras Penguin ( Inglaterra), Rizzoli ( Itállia), Autrement ( França) Editorial Crítica ( Espanha), Rive Gauche (China) e Yale University (EUA) entre outras. (foto: Ernest Hemingway escrevendo © Paris Review) uma homenagem ao grande autor.

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