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O Espírito de um Gênio, Kandinsky

*Por Fernando Davis

O paulistano amante das artes tem nova oportunidade para conhecer de perto um ícone. Desta vez, Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo oferece uma grande exposição com o pai do abstracionismo, o russo Wassily Kandinsky.

Nascido em Moscou em 16 de dezembro de 1866, Kandinsky era um artista único, com ímpeto voraz em sua produção revolucionária.  No começo de sua vida, o jovem Kandinsky tinha interesse pela música, que mais tarde influenciaria fortemente sua obra. Ainda antes das telas, viria uma inclinação a trilhar o mundo acadêmico, com formação em Direito e Economia na Universidade de Moscou. Felizmente desistiu desse caminho depois de ser atingido visceralmente por uma exposição impressionista. E assim começa a carreira de um dos maiores pintores de todos os tempos.

Como premissa para ser um grande artista, o fundamental caráter experimentador era o combustível que alimentava sua ânsia em expressar sua arte interior. Para ele, a arte deveria ser sacramental, um signo visível e exterior de uma graça espiritual interior, indiferente da técnica empenhada pelo artista. Seguindo essa linha de pensamento, Kandinsky é pioneiro em revelar ao mundo que a figuração não é o único caminho para representar o homem e seu estado de espírito.

Da antiga cultura popular russa, passando pelo folclore local e crenças indígenas até as vanguardas mais modernas de toda a Europa, Kandinsky bebia de todas as fontes, sempre em busca de expandir seus horizontes afim de engrandecer sua arte, podendo assim até ser designado como um “artista antropofágico”, devorador de influências de todo o mundo.  E é muito interessante notar seu desenvolvimento técnico. Em um primeiro momento recorre ao figurativismo, como todo pintor abstrato diga-se de passagem, e posteriormente fica cada vez mais abstrato, com pinceladas mais soltas e exploração das cores de maneira mais ousada. Afinal parece que todo artista recorre ao abstrato quando o figurativo já não é o suficiente para se expressar. Temos que levar em consideração que no começo do século XX, a arte vivia um rico período de efervescência, com grandes movimentos surgindo tais como o Cubismo e o Fauvismo.  

Na exposição “Kandinsky, Tudo Começa num Ponto”, muito bem distribuída nos quatro andares e subsolo do histórico prédio, é possível acompanhar através de suas obras e de outros artistas, além de objetos de diferentes culturas como a Mongol, sua incrível jornada como precursor do abstracionismo. O acervo base de quadros, xilogravuras, poemas e textos é do Museu Estatal Russo de São Petersburgo, mas conta com peças de outros museus russos e coleções particulares. A mostra nos apresenta diferentes fases desse artista nômade, que apesar de ser russo, trabalhou muito na Alemanha e, posteriormente, França, ambos países onde tirou cidadania local. Vale lembrar que Kandinsky chegou a fugir da Alemanha duas vezes por conta da Primeira e da Segunda Guerra Mundial. Em sua primeira passagem em terras germânicas, Kandinsky funda ao lado de outros artistas como Paul Klee, Franz Marc e sua mulher Gabriele Müter, o grupo Cavaleiro Azul (Der Blaue Reiter), que ao lado do grupo A Ponte (Die Brücke), foi o mais importante movimento do expressionismo alemão. Já em seu retorno, tornou-se professor na utópica Escola Bauhaus, a convite de Walter Gropius. Ainda vale destacar na exposição ora em São Paulo, um magnífico vídeo no subsolo que conta a difícil relação de amor e ódio entre Kandinsky e Arnold Schoenberg, compositor austríaco de música erudita, e a mútua identificação entre suas obras. Do mesmo modo, outro ponto alto da exposição, é uma atividade imersiva localizada no andar térreo, onde os espectadores interagem com a tela “On White” utilizando um óculos de realidade virtual. Dessa forma, a curadoria de Evgenia Petrova e Joseph Kiblisky, propõe uma válida, lúdica e diferente participação do público.

Como vocês podem notar, a exposição “Kandinsky, Tudo Começa num Ponto" é um prato rico não apenas para os amantes de arte, mas também para aqueles que querem entender melhor o percurso do abstracionismo que, quando chegou, veio para ficar.

* Fernando Davis é artista paulistano que trabalha com diversos tipos de mídias, mas principalmente pintura. Desde Julho, Fernando contribui com algumas matérias referentes a mostras e exposições.

Vistas da exposição

Kandinsky no CCBB

Jogo de porcelana pintada pelo artista pertence hoje ao acervo de um colecionador inglês

Wassily Kandinsky, Quadro com Pontas, 1919 (óleo sobre tela)

Wassily Kandinsky, Improvisação 34, 1913 (óleo sobre tela) / Crédito de todas as imagens: Tauã Miranda

Saiba mais sobre a exposição aqui.