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Nuno Ramos, O Explorador

* Por Fernando Davis

A Estação Pinacoteca do Estado de São Paulo apresenta a exposição “HOUYHNHNMS” do artista multimídia paulistano, Nuno Ramos. Produzida ao longo de nove meses e composta por diversos trabalhos como pinturas, relevos, desenhos e esculturas de grandes proporções, a exposição logo me chamou a atenção. Quando li a respeito da amostra, fiquei muito instigado em conhecer a obras, principalmente as pinturas, por também ser pintor. Sendo assim, logo que abriu fui visitá-la.

Vistas de uma das salas da exposição que permanece em cartaz até 15 de novembro (Foto: Tauã Miranda/InfoArtSP)

Diferente das últimas matérias, onde analisei exposições de mestres como Miró e Kandinsky, dessa vez escolhi visitar uma amostra de um artista atual. Analisar o trabalho de um artista contemporâneo é uma tarefa muito mais difícil do que dos mestres consagrados do passado. Se nos casos anteriores o anseio era mostrar o porquê da grandiosidade dos mesmos, um lugar comum consolidado pela a história da arte, nesse caso a inovação está em se tratar de um artista vivo em plena produção. Analisar o novo é sempre um verdadeiro desafio. Sem dúvida alguma, desde que começou sua carreira, Nuno já mostrou seu valor em diversas e de várias maneiras (além de artista é escritor, compositor, cenógrafo e ensaísta). Mas o desafio aqui não esta em seu passado e sim nessa nova exposição que, com exceção de Cavaloporpierrô, já montada em 2014, é feita apenas com obras inéditas.

A exposição esta dividida em quatro séries: Desenhos, Relevos, Dádivas e Vaselinas. Vamos então por partes:

Desenhos
São sete desenhos de grande escala feitos em papel. Lembrou-me outros desenhos da série “Anjo e Boneco” expostos há uns anos atrás na galeria Fortes Vilaça, onde o uso do carvão como instrumento é destacado. A nova série se chama Proteu, baseada no deus grego de mesmo nome pela sua capacidade de se transformar em diferentes formas. São desenhos vigorosos e que remetem movimento e espontaneidade. Neles é possível observar os próprios títulos carimbados no plano, sugerindo a metamorfose expressada no trabalho. Se por um lado esses carimbos/títulos tendem a influenciar uma interpretação, a concepção estética dos trabalhos aponta para outro lado, fazendo com que o espectador se perca em devaneios.

Da série Proteu (Foto: Tauã Miranda/InfoArtSP)

Relevos
Essa era a parte da exposição de meu maior interesse. São quatro pinturas, ou melhor, relevos gigantescos expostos em uma sala, um em cada parede. Mais uma vez existe um elo entre os títulos com outras mídias, como a literatura e a música. Esses instigantes relevos compostos de diferentes materiais são além de grandes, fascinantes por sua riqueza de cores e formas. Eles ficam em um limiar entre a pintura e a escultura. Literalmente saltam para fora da tela. O que mais me chamou a atenção é a utilização de diversos tipos de materiais para se expressar. Nuno não os produziu com a preocupação de serem agradáveis para se pendurar em uma sala de jantar, e sim na exploração de seus meios, de sua pesquisa. São inquietantes, mexem com você, trazem diversos tipos de questionamento à cabeça, um turbilhão de ideias. E, para mim, é nisso que residi a grande qualidade de uma obra de arte, fazer o homem pensar. Como? Por que? Pra que?

Houyhnhnms (Foto: Tauã Miranda/InfoArtSP)

Detahe da obra (Foto: Tauã Miranda/InfoArtSP)

Dádivas
Sem dúvida a parte que mais me intrigou. CavalodePierrô e Casaporarroz são obras compostas cada uma por escultura, vídeo e réplica. Nos vídeos o público já pode notar trocas aparentemente desconexas entre os nomes citados nos próprios títulos. Em um primeiro momento, não gostei. Achei um trabalho nonsense, sem perna e cabeça. Mas o que foi estranho é que após terminar de ver a exposição, essas obram continuaram a agir sobre mim, me deprimindo. Passaram horas, dias e tudo aquilo ainda estava em minha cabeça. Depois de um tempo, acabei voltando a exposição, dessa vez pela InfoArtSP, e fui determinado a entender melhor as Dádivas.

Uma vez li um ensaio muito interessante de Leo Steinberg sobre a relação público X obra. Resumindo, o autor frisa que é mais que natural o espectador ficar chocado, deprimido com algo diferente daquilo que ele tem como definição de arte. Esse choque com o diferente coloca em cheque tudo o que a pessoa passou a vida aceitando ser arte, e acredito que foi mais ou menos isso que me aconteceu em relação às Dádivas. Nesse segunda visita, com um olhar mais atento, notei coisas que antes não havia reparado e de uma certa forma acabei aceitando tudo aquilo, dando seu devido valor dentro da exposição e da obra de Nuno. Pode se dizer que acabei por digerir tudo.

Vaselinas
Vaselinas é uma série de cinco pinturas feitas com esse material onde Ramos evoca seu próprio passado, dando continuidade a essa técnica de pintura que já havia trabalho na década de 80. Assim como os Relevos, são de grande escala e ricas esteticamente. O olho não consegue ficar parado, seja para contemplar tantos detalhes, seja para procurar um sentido. Como não podia deixar de ser, mais uma vez os títulos têm referência com a literatura. Com tantas cores e tons, me propus o desafio de lembrar alguma cor que já não estivesse lá. Não consegui.

Da série Vaselinas (Foto: Tauã Miranda/InfoArtSP)

Da série Vaselinas (Foto: Tauã Miranda/InfoArtSP)

"HOUYHNHNM" é uma exposição muito abrangente, de enorme qualidade técnica e que atrai o público de diversas maneiras. Apesar das obras serem todas de grandes dimensões, os pequenos detalhes, como os títulos, fazem grande diferença.

Mais uma vez Nuno Ramos comprova sua pluralidade e versatilidade como artista. Na pintura, o menciono como um dos maiores do Brasil hoje, pois sua pesquisa autêntica e voraz é consequentemente estimulante. Fica claro que o anseio do artista não é simplesmente agradar e criar um objeto de consumo, e sim, como todo grande artista, provocar. Sempre atrás de novos recursos e novas linguagens para se expressar, Nuno Ramos é, antes de tudo, um explorador.

* Fernando Davis é artista paulistano que trabalha com diversos tipos de mídias, mas principalmente pintura. Fernando é colaborador do site e escreve matérias referentes a amostras e exposições.

Detalhe de uma das Dádivas de Nuno Ramos na exposição (Foto: Tauã Miranda/InfoArtSP)