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Guerrilha feminina em ação no MASP!

As Guerrilla Girls, grupo de ativistas feministas americanas mundialmente conhecido (e até mal quisto em alguns lugares devido ao teor crítico de seus trabalhos) traz para o Brasil uma retrospectiva de toda a sua obra. Ao todo, são 165 obras expostas em "Guerrilla Girls - Gráfica 1985-2017", mostra que permanece em cartaz até 14 de janeiro de 2018, no MASP.

Mas o que essas artistas, que usam codinomes de personagens famosas do mundo das artes e permanecem anônimas sob máscaras de gorilas (que em inglês possui pronúncia semelhante à palavra "guerrilla", em espanhol) e roupas pretas em suas aparições públicas, produzem que faz tanto barulho ao redor do mundo?

Cartazes na exposição "Guerrilla Girls - Gráfica 1985-2017" (Foto: InfoArtSP)

Apesar do devido destaque para as artistas, alarmante mesmo são as próprias coleções dos museus, as exposições e artistas representados pelas grandes galerias e o modus operandi do mercado de arte ao redor do globo - especialmente nos grandes e movimentados mercados estadunidense e europeu -, que reproduz, apesar do discurso "liberal" desses espaços, os mesmos "ismos" que encontramos no dia a dia da sociedade ocidental: sexicismo, racismo, eurocentrismo, elitismo, falocentrismo, entre outros. O trabalho das GG se baseia em expor esses aspectos preconceituosos do universo artístico através de cartazes com fatos, humor e materiais afrontosos, que começaram a se espalhar em Nova York, em 1985, em resposta a uma exposição no Museum of Modern Art de Nova York que trazia 165 artistas, mas apenas 13 mulheres.

Vistas de uma das paredes da exposição (Foto: InfoArtSP)

"Nós subvertemos a ideia de uma narrativa dominante ao revelar a contranarrativa, o subtexto, o que é ignorado e a injustiça descarada", afirmam as guerrilheiras. Apesar dos cartazes como veículo de comunicação inicial com o público (sendo usados como lambe-lambes ou outdoors e quase sempre acompanhados com a frase "Uma mensagem de utilidade pública das Guerrilla Girls Consciência do mundo da arte" no final), hoje as GG realizam trabalhos em outros suportes, tais como vídeos, livros, adesivos e ações - como a projeção-surpresa realizada na fachada do Whitney Museum, em Nova York, sobre desigualdade de renda e o sequestro da arte pelos super-ricos, grupo constantemente criticado pelas artistas.

“O discurso bem-humorado das GG se articula com questões mais abrangentes e profundas em relação ao eurocentrismo, ao privilégio branco, à heteronormatividade e ao domínio masculino”, observa Adriano Pedrosa, curador da exposição, ao lado de Camila Bechelany, e diretor artístico do MASP. O anonimato das artistas ajuda a fortalecer essas discussões, uma vez que é mantido o foco nas questões que abordam, e não em suas identidades – elas se apresentam ao público com os pseudônimos de Frida Kahlo, Kate Kollwitz, Shigeko Kubota e Zubeida Agha.

Guerrilla Grils: As mulheres precisam estar nuas para entrar no Met. Museum? (1989) (Divulgação - MASP/Guerrilla Girls)

Entre os mais de 100 trabalhos expostos, a mostra na Av. Paulista exibe uma versão em português de um dos mais conhecidos trabalhos das artistas, o As mulheres precisam estar nuas para entrar no Met. Museum? (1989), exibido agora como no MASP? (2017). A obra aborda o contraste entre o pequeno número de artistas mulheres comparado ao grande número de nus femininos da coleção em exibição no Metropolitan Museum de Nova York (5% e 85% em 1989, e 4% e 76% em 2012) e no MASP (6% e 60% em 2017) – isso sem considerar o grande número de nus femininos na exposição de Pedro Correia de Araújo, atualmente em cartaz no museu paulista.

Cartazes que criticam a indústria da música e cinematográfica pela baixa presença de mulheres e minorias também estão expostos na mostra, bem como outros que fazem críticas aos personagens políticos americanos das últimas décadas. Todas as obras possuem tradução em português ao seu lado, junto com a contextualização do cenário em que se deu a crítica.

Fachada do MASP, na Av. Paulista (Foto: InfoArtSP)

As GG ainda convidam o público paulistano para uma performance ao vivo no Vão do MASP nesta sexta-feira (29), às 20h. Elas também apresentam o projeto Complaints Department [Departamento de reclamações], montado na Tate Modern em 2016 e, agora, na segunda edição do "Frestas – Trienal de Arte", no Sesc Sorocaba, com uma versão também na internet, em departamentodereclamacoes.com.

Com as discussões crescentes e o maior alcance atingido nos últimos anos pelos movimentos feminista, negro, LGBT e de outras minorias no país, as Guerrilla Girls chegam ao Brasil e colocam mais lenha nessa fogueira em um momento propício para o debate sobre diversas questões no universo das artes. Bem como já fazem há mais de três décadas.