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“Frestas - Trienal de Artes” ocupa Sorocaba (SP) com obras que discutem a noção de verdade na arte e nos discursos midiáticos

Promovendo a descentralização dos polos de arte contemporânea no país, a 2ª edição do evento realizado pelo Sesc tem curadoria de Daniela Labra

Frestas, no Sesc Sorocaba (Foto: Adriano Sobral)

O Sesc abriu no dia 12 agosto, em Sorocaba, a 2ª edição de “Frestas – Trienal de Artes”. Com o tema “Entre Pós-Verdades e Acontecimentos” e curadoria da crítica de arte Daniela Labra, o evento gratuito ocupará diversos pontos da cidade, localizada a 90 km de São Paulo, até 03 de dezembro de 2017.

“Além de promover o intercâmbio entre artistas locais, regionais e internacionais, Frestas contribui para a descentralização dos polos de arte contemporânea no Brasil ao proporcionar o acesso a diferentes formas de bens culturais ao público do interior paulista”, afirma Danilo Santos de Miranda, diretor regional do Sesc São Paulo.

Entre projetos comissionados, performances, residências artísticas, intervenções urbanas e trabalhos feitos exclusivamente para a internet, a trienal apresentará cerca de 160 obras, produzidas por 60 artistas contemporâneos, de diferentes gerações e de 13 países, que discutem as ambiguidades presentes nas artes e as duvidosas verdades nos discursos midiáticos cotidianos.

“A proposta curatorial aponta caminhos para refletir acerca da impossibilidade de definir Verdade, tanto nas atuais narrativas políticas globais, sustentadas por redes de memes, falsos profetas e populismos midiáticos, como também na arte, cujas certezas sobre sua natureza regrada começam a ruir já no final do século XIX”, diz Daniela Labra, que definiu cincos eixos para a exposição: ambiguidades formais; transdisciplinaridade; performatividade; gênero e sexualidade crítica social.

Frestas, no Sesc Sorocaba (Foto: Iuri Fioravante)

A mostra principal de Frestas acontece em uma área de 2.300 m2 construída especialmente para o evento no estacionamento do Sesc Sorocaba. Lá estarão trabalhos de renomados artistas brasileiros, como Wanda Pimentel. Representante da vanguarda da arte pop nacional, a carioca terá sua obra revisitada com relevos pintados e telas das décadas de 1960-70 pouco conhecidas, com temas urbanos e femininos. Também do Rio de Janeiro, o pintor Daniel Senise, expoente da “Geração 80”, realiza seu primeiro projeto utilizando a técnica metacrilato em fotografias. Sobre imagens do antigo refeitório dos funcionários da Estrada de Ferro Sorocabana, ele aplica objetos e resíduos retirados do próprio local, que permanece abandonado.

O duo brasileiro-suíço Dias & Riedweg desenvolveu uma videoinstalação inédita baseada no acervo do fotógrafo norte-americano Charles Hovland, que registrou fantasias sexuais de clientes que responderam seu anúncio em jornais novaiorquinos entre 1970 e 1980. O mato-grossense Gervane de Paula critica de forma bem humorada a construção de símbolos do Pantanal frente a problemas da região, como a devastação agrícola e o tráfico de drogas. Em uma de suas obras, souvenires de onças, jacarés e frutas surgem ao lado de um grande cachimbo de crack, que no lugar de pedra de fumo tem tuiuiús prestes a serem queimados.

Ainda entre os brasileiros, Fabiano Marques investiga procedimentos da justiça, aludindo à infância vivida na cidade de Sorocaba durante anos repressivos da ditadura militar, Ricardo Càstro, da vizinha São Roque, criará um espaço com luzes, cores, cristais e mobiliário interativo, evocando um ambiente poético de energização e regeneração espiritual, e o paulistano Thiago Honório, traz o inédito tríptico “Alvo, Revolver e Bala”: um boneco em escala humana tem corpo constituído de bandejas de balas de coco, uma instalação com carcaças de pistolas antigas na altura das mãos do público e um palhaço cujo nariz é esticado até provocar um tenso sorriso.

Frestas, no Sesc Sorocaba (Foto: Adriano Sobral)

O espaço expositivo também recebe destaques internacionais, como obras da fotógrafa norte-americana Francesca Woodman (1958-1981), com um expressivo conjunto de imagens que revelam força e urgência nos sujeitos retratados, muitas vezes, ela própria; a artista e médica legista mexicana Teresa Margolles, que criou uma coleção de joias em ouro 18K com estilhaços de bala ou vidro retirados de corpos de vítimas da guerra do narcotráfico em seu país; o alemão Michael Wesely, que desenvolveu uma técnica para registrar a passagem do tempo e exibe, em primeira mão, imagens captadas nas manifestações favoráveis e contra o impeachment de Dilma Rousseff; e o cubano Reyner Leiva Novo, que montará um grande e colorido painel com escovas de dentes usadas, trocadas por escovas novas com moradores de um bairro de Sorocaba.

Outros locais do Sesc também serão ocupados por Frestas. Na área expositiva no térreo do edifício principal, estará o “Departamento de Reclamações”, do coletivo norte-americano Guerrilla Girls. Realizado no ano passado na Tate Modern, em Londres, o trabalho das artistas feministas – que não revelam sua identidade e sempre aparecem em público com máscaras de gorila – convidam os visitantes a entrarem e registrarem qualquer tipo de queixa.

Na área externa, o anfiteatro ganhará diversos manequins pintados de verde cintilante que, por meio de efeito chroma key, são a base de fundo de um vídeo inédito do carioca Pedro França. Já na ponte estaiada que liga os dois prédios da unidade, o paulistano Daniel Lie construirá uma grande instalação ornamental com plantas naturais e a expressão “Passa Logo”, referente tanto ao local de passagem como a vida breve da obra e da humanidade. Até a fachada será usada como suporte para uma intervenção artística. O gaúcho Daniel Escobar negociou com cinco comerciantes da cidade a retirada de uma letra que anunciava o nome de seus estabelecimentos, formando com elas a palavra “Sonho” na frente do Sesc
Sorocaba.

Frestas, no Sesc Sorocaba (Foto: Iuri Fioravante)

Frestas pelas ruas de Sorocaba
Frestas carrega em seu título o sentido do nome Sorocaba, que, traduzido do tupiguarani, significa o “lugar da rasgadura”. Por isso, a trienal não poderia ficar restrita às dependências do Sesc. Nesta edição, ela também estará em ruínas históricas, estabelecimentos comerciais e espaços públicos de grande circulação da cidade.

Maria Thereza Alves, brasileira radicada nos EUA, pesquisou vestígios de comunidades indígenas na região de Sorocaba, mas o único registro encontrado foi uma urna mortuária em um museu da cidade que não tem acesso ao público. Surgiu assim o projeto “Um Vazio Pleno”. O ceramista indígena Maximino Kalipety, de Dourados (MT), confeccionou réplicas da urna, que serão enterradas em 16 pontos no centro, de modo a reinserir a presença indígena na cidade.

O terminal de ônibus Santo Antônio foi o local escolhido pelo carioca Gustavo Speridião para seu projeto. Todos os dias, às 6h e 18h, os passageiros do local ouvirão uma gravação à capela do centenário hino “A Internacional”, ao mesmo tempo uma homenagem ao trabalhador e um irônico comentário sobre os fins das utopias e as ainda precárias condições trabalhistas de hoje. Já em uma praça em frente à rodoviária, o paulistano André Komatsu criará uma estrutura de biombos, como um labirinto, lidando com aspectos como público e privado, passagem e impedimento.

Um dos principais nomes de arte urbana no mundo atualmente, o grafiteiro NUNCA (Francisco Rodrigues da Silva), de São Paulo, utilizará a empena cega de um edifício no centro de Sorocaba para produzir um painel de 38 metros de altura, abordando o universo popular e jovem brasileiro. A carioca Panmela Castro terá um muro do histórico edifício da Secretária de Cultura para questionar o lugar da mulher na sociedade patriarcal e no grafite, além de realizar uma performance e instalação sobre estereótipos femininos, na unidade do Sesc.

No Jardim Botânico da cidade, o pernambucano Edson Barrus plantará uma muda de Imburana, cuja madeira é utilizada por artesãos de seu estado para esculpir imagens de santos. Por fim, em uma área na divisa entre Sorocaba e Votorantim, o mineiro Cleverson Salvaro construirá, durante residência artística, uma estrutura cuja forma está entre um muro e um portal, aludindo a discussões sobre território, fronteira e obras públicas inacabadas.

Mais sobre Frestas e seus artistas
A edição “Entre Pós Verdades e Acontecimentos” tem Yudi Rafael como assistente de curadoria; a curadoria educativa é de Fabio Tremonte; a curadoria editorial de Ana Maria Maia e Júlia Ayerbe; o projeto gráfico de Julia Masagão; e o projeto expográfico do Estúdio Gru. Participam 42 artistas nacionais e 18 dos seguintes países: Alemanha, Argentina, Áustria, Cuba, Espanha, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Guatemala, Japão, México e Peru.

Frestas, no Sesc Sorocaba (Foto: Iuri Fioravante)

Serviço
FRESTAS – TRIENAL DE ARTES | ENTRE PÓS-VERDADES E ACONTECIMENTOS
Datas: De 12 de agosto a 03 de dezembro de 2017.
Local: Sesc Sorocaba - R. Barão de Piratininga, 555 – Jd Faculdade – Sorocaba/SP.
Horários: De terça a sexta, das 9h às 21h30; sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h30.
Entrada gratuita.