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Curadora Isabella Lenzi analisa desafios do processo para desenvolver uma exposição

Por Tauã Miranda 

O apreciador de arte pode não ter a exata noção, mas por trás de uma exposição está o trabalho de dezenas ou até mesmo de centenas de pessoas. No entanto, duas delas estão sempre em destaque: o artista e o curador. Mas como esses dois profissionais atuam e se relacionam entre si? Em entrevista ao InforArtSP, a curadora Isabella Lenzi joga luz sobre esse debate. 

“Um dos aspectos que me fascinam na atividade do curador é a construção em conjunto com o artista. Se aproximar e pensar o trabalho do outro é sempre um processo delicado. Ali você se esbarra com sentimentos, vivências pessoais e individualidades que muitas vezes transparecem e integram a obra do artista. Lidar da melhor forma possível com essas questões e transmitir ao público o trabalho de determinada pessoa é um processo que demanda conquista de confiança mútua”, afirma Isabella Lenzi, curadora das exposições Lambe-lambe: os fotógrafos de rua na São Paulo dos anos 70, em cartaz no MIS, e Pedras errantes, no espaço Zip’up da Zipper Galeria, onde trabalhou em parceria com Juliana Caffé para apresentar a artista Manuela Costa Lima.

Vistas da exposição "Pedras errantes", em exposição na Zipper Galeria / Créditos: divulgação

A paulistana, de 28 anos, conversou com o InfoArtsp sobre o trabalho curatorial, suas impressões sobre o circuito da arte em São Paulo e outros assuntos ligados a esse universo. “Por um lado, você tem hoje a democratização dos espaços expositivos através das grandes mostras internacionais. Essas exposições blockbuster fazem com que mais pessoas frequentem e ocupem os espaços dos museus e das instituições, que até pouco tempo eram usufruídos por um público específico. Por outro lado, isso deve ser pensado para que o circuito de artes seja realmente apreciado e não apenas consumido”.

Segundo Isabella, uma atenção especial deve ser dada ao circuito alternativo de artes. “Esses espaços de resistência como o Ponto Aurora ou a Phosphorus, por exemplo, tentam de alguma forma se aproximar de artistas novos, retirar a aura dos museus e ser uma alternativa no circuito da cidade”. Ela também aponta os principais destaques entre os museus da cidade: “vale elogiar o movimento importante que acontece no MASP de arquivologia, de retomada de diálogo com o projeto inicial de Lina Bo Bardi. O MAC-USP também tem desenvolvido atividades significativas, com uma equipe curatorial séria, ligada à academia, e que pensa o trabalho do curador de uma outra forma, como, por exemplo, fica claro nos trabalhos de Cristina Freire e Heloíse Costa.”

Formada em arquitetura pela FAU-USP, Isabella diz já ter escolhido essa área por seu interesse em artes, devido à abertura do curso para esses estudos. “Desde o princípio quis estudar a história da arte, pensar a cidade e a ocupação de seus espaços”, comenta a curadora.

Mas foi durante a 11ª Bienal de Cuenca, no Equador, onde trabalhou com seu professor Agnaldo Farias - curador desta edição da bienal -, que descobriu o interesse pela curadoria. “Hoje eu tenho uma certa dificuldade com o título de ‘curador’. O glamour da palavra me incomoda um pouco”, confessa.

Sobre suas exposições em cartaz no momento, Isabella analisa que “foram processos completamente diferentes”. A mostra Lambe-lambe: os fotógrafos de rua na São Paulo dos anos 70 foi um convite da direção do MIS para realizar uma exposição baseada no arquivo do museu. “Fiz muita pesquisa. Descobri detalhes de um projeto do final dos anos 70 e, a partir dali, fui me aprofundando cada vez mais nos estudos, nos arquivos do museu e nas histórias que escutei dos antigos pesquisadores. Daí surgiu esta exposição, que possui um caráter mais político, de preservação da memória da cidade, de resgate de sua história e a relação que mantinha com a rua, com os lambe-lambe e o espaço urbano paulistano”.

Para o espaço experimental Zip’up, da Zipper Galeria, o processo foi diferente. “Eu e a Juliana Caffé recebemos o convite da galeria com um recorte específico: encontrar um artista jovem e sem exposição em São Paulo. Então chegamos ao trabalho da Manuela Costa Lima depois de certa procura e algumas conversas. O processo dessa exposição, por contar com duas curadoras e uma artista jovem, foi outro, mas atingimos o que procurávamos e estamos todas muito satisfeitas com o resultado”.

O trabalho de Isabella Lenzi como curadora pode ser conferido na Zipper Galeria até o final de maio, e, no MIS, até meados de junho. Confira essas e outras exposições em nossa agenda.

A paulistana Isabella Lenzi

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