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Blog do Juan Esteves: Rev. Nacional 13 > J.R. Duran

por Juan Esteves

“Faça a coisa de maneira mais simples possível e retire da sua frente o que não serve para nada.” A frase, ou melhor, o conselho é do octogenário David Bailey, um inglês que saiu do suburbano londrino Laytonstone e que nos anos 1960 mudou o rumo da história da fotografia não somente da Inglaterra mas do mundo inteiro. De maneira simples, como ele mesmo diz, rompeu com oestablishment, trocou o visual das grandes modelos e desbancou as editoras de moda “divas” da época, alterando a imagem fashion e o portrait.

O autorretato de Bailey ilustra a capa da "Rev. Nacional 13", produzida pelo catalão J.R.Duran e a Editora e Gráfica Ipsis, uma parceria que traz a cada dois meses o que este consagrado fotógrafo radicado no Brasil chama de uma espécie de “portfólio de sonhos e intenções para ver e ler.” Um apanhado de reflexões pessoais, histórias de viagens e lugares peculiares, personagens famosos, mulheres estonteantes, acompanhados sempre pelo seu indefectível savoir-faire.

Um dos personagens carimbados da então “swinging London”, a efevercência cultural dos anos 1960, o fotógrafo foi casado com belas mulheres de seu tempo como a atriz francesa Catherine Deneuve e a modelo americana Jean Shrimpton. Também serviu de arquétipo para o protagonista do antológico Blow Up, dirigido em 1967 pelo cineasta italiano Michelangelo Antonioni (1912-2007). Curiosamente, o fotógrafo explica a Duran que na verdade o tal “swinging” foi uma revolução da classe trabalhadora e não da classe média, como sempre acontece. Uma classe daonde diz terem saídos a maioria de seus fotografados.

Na conversa dos dois grandes fotógrafos, um rol de ecléticos personagens como o bailarino russo Rudolf Nureyev (1938-1993), o roqueiro americano Alice Cooper, o artista novaiorquino Andy Warhol (1928-1987) e até mesmo o poeta francês Jean Cocteau (1889-1963) e um portfólio incluindo a modelo inglesa Kate Moss, a rainha Elizabeth II, o roqueiro inglês Ronnie Wood, a ex-mulher Catherine Deneuve, entre tantos.

O primeiro número da "Rev. Nacional" foi lançado em 2010 pela Gráficos Burti que editou 5 publicações, que inclusive não eram vendidas, somente distribuídas a um seleto mailing. Imagens e textos (com diferentes heterônimos) eram todos de J.R. Duran. A Ipsis assumiu a edição a partir do sexto exemplar em diante até o 11º número quase que semestralmente, com cerca de 140 páginas, que podiam ser adquiridos pelos mais simples mortais. A partir do 12º a revista reduziu as páginas mas passou a ser bimestral ganhando também a colaboração de outros autores, como o jornalista Roberto Bressane, a roteirista Fernanda Young e portfólios de fotógrafos como German Lorca e Bob Wolfenson.

Nesta edição, um conto do carioca Gustavo Pacheco, escritor e diplomata que ficou 18 anos sem comer carne. Ronaldo Bressane escreve o profile da cantora e compositora baiana Luedji Luna, “que arrebatou corações com seu álbum Um corpo no Mundo." Das divas modelos estonteantes, a presença é de Ana Gequelin, fotografada nua por Duran que também retratou a cantora.

Martín de Las Casas, filósofo e jornalista pela Universidade de Navarra, heterônimo do fotógrafo, escreve um texto sobre o dia em que o destino lhe colocou frente a frente o Inca Atahualpa e Francisco Pizarro no arrebatador cenário de Machu Pichu, no Perú, perfeitamente ilustrado por Duran, que tem feito uma visita anual ao lugar.

J.R. Duran também continua com sua série de still life Cotidiano, exemplarmente impressa no papel italiano Garda Kiara Pat, que dá mais charme a publicação impressa no processo exclusivo full black. Interessante também é a entrevista com outro fotógrafo de peso, o novaiorquino e também octagenário Peter Beard, desta vez feita pelo fotógrafo paulista Marcio Scavone.

Se o londrino Bailey estrelava o agito, o americano Beard foi na direção oposta do barulho, indo para África já em meados dos anos 1950, mais precisamente para o Quênia e nos anos 1960 já tinha uma licença especial para ter sua casa, documentar, escrever e fotografar trabalhando no Parque Tsavo, publicando seu livro The End of the Game (Viking Press1965). Ele documentou uma população massiva de 35.000 elefantes e 5.000 rinocerontes, quando os animais sucumbiram à fome e às doenças relacionadas à tensão e à densidade.

O texto de Scavone, autor do livro Copo de Luz, ensaios sobre fotografia como arte e memória (Alice Publishing, 2018) [leia a review do livro no Blog do Juan Esteves], foi originalmente publicado na revista MIT (da Mitsubishi Motors) em 2010 e é também um capítulo deste livro. Traz o encontro dos dois narrado em ritmo literário pelo autor, que recentemente tornou-se membro da Academia Paulista de Letras.

Peter Beard recebeu o fotógrafo brasileiro em Cassis, sul da França, uma pequena e charmosa enseada na região de Provence-Alpes-Côte d'Azur banhada pelo verde mar Mediterrâneo que chegou a ser ocupada por romanos nos séculos VII e VI A.C. No texto, desfilam histórias de um pitoresco bon vivant, também casado com modelos famosas, como a americana Cherril Tiegues, que - conta a lenda foi a primeira "supermodel”- amizades com grandes nomes com o pintor dublinense Francis Bacon (1909-1992) e os americanos Truman Capote (1924-1984) escritor e, mais uma vez, Andy Warhol, epítome da Pop Art.

Infelizmente, diferente de Bailey, a matéria é ilustrada apenas pelos retratos feitos por Scavone, com seu modelo entre jornais na cama, folheando o seu livro sumô, da Taschen, e escrevendo sobre o seu retrato famoso de 1960 no Ol Morani Camp, em Lariak, no Quênia. As belíssimas colagens dos elefantes, modelos, e textos que marcaram o autor, ficaram de fora. Entretanto, dois fotógrafos octagenários mundialmente reconhecidos, contando suas vidas, trata-se de um plus que até mesmo poucas publicações ditas de fotografia foram capazes de fazer. Ponto para Rev. Nacional!

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Imagens © Autores. Texto © Juan Esteves.

Sobre Juan Esteves
Nascido em Santos, SP, é fotógrafo e jornalista há 30 anos. Escreveu para o caderno Ilustrada da Folha de S.Paulo, onde foi fotojornalista e editor de fotografia. Foi colunista da revista Iris Foto e do portal Fotosite, onde também foi editor, além de colaborar com diversas revistas como a SeLecT, Santa Art Magazine e Fotografe Melhor. Suas imagens já foram publicadas pelas editoras Penguin ( Inglaterra), Rizzoli ( Itállia), Autrement ( França) Editorial Crítica ( Espanha), Rive Gauche (China) e Yale University (EUA) entre outras.

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