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Blog do Juan Esteves: História da Fotografia autoral e a pintura moderna > CLAUDIO EDINGER

por Juan Esteves

"História da fotografia autoral e a pintura moderna" (Ipsis, 2019) como o nome diz, trata do mais antigo dos diálogos entre esse meio mecânico imagético e suas afinidades com sua predecessora, a pintura. Seu autor, o carioca Claudio Edinger, veio pensando a ideia desde 1996, quando voltando ao Brasil, depois de uma longa temporada nos Estados Unidos, começou a dar workshops em festivais e aulas em centro culturais. Em 2009 começou a pautar suas questões nas redes sociais iniciando assim o conjunto ora publicado.

Para Edinger, não existe uma história da fotografia e sim interpretações, diz ele na sua apresentação. “Para se aprofundar de fato na nossa história, seriam necessários dezenas de volumes. “ O que corrobora a ideia de que  toda compilação é um ato arbritário de quem a edita, sendo uma visão particular e nunca abrangente na totalidade, o que de fato seria impossível de ser realizado. Entretanto, é fruto do vocabulário vasto e eclético de seu autor, cuja trajetória é avalizada também pelo próprio trabalho como fotógrafo. Portanto, por este conhecimento, ele inclui autores e por consequência exclui outros.

Independentemente da escolha de seus verbetes, meio pelo qual a publicação é estruturada,  o livro traz um trabalho de fôlego em suas quase 400 páginas, uma pesquisa razoável, ainda que seletiva e exclusivista, que procura mapear a estrutura fotográfica desde seus primórdios e suas relações intrínsecas com a arte, seja no relacionamento dos pintores diretamente com o meio ou por eles se utilizarem deste como base. Estes verbetes, como escreve no prefácio o curador mineiro Agnaldo Farias, são concatenados por uma lógica temporal não se ressentindo da dureza  dos textos de extração científica.

A isto que Farias anota, soma-se o fato de que o país também se ressente de publicações do gênero, se não dizer raríssimas. Em sua grande maioria, as compilações de artistas plásticos ou fotógrafos se dão como publicações pagas por aqueles que formam seu conteúdo, por isso não representam exatamente um conceito curatorial exigente e sim um amontoado de nomes díspares, representados pelos inúmeros “art books” que pululam das benesses das leis de renúncia fiscal.

Entre as poucas há de se ressaltar "A História da Fotografia no Brasil, um olhar das origens ao contemporâneo" (Funarte,2004) da carioca Ângela Magalhães e da niteroiense Nadja Fonseca Peregrino, que embora não tenha a amplitude internacional é uma obra que procurou mapear a produção brasileira desde os primórdios. Também lembramos de "Imagens da Fotografia brasileira, vol.1" (Estação Liberdade, 1997) e "Imagens da Fotografia brasileira vol.2" ( 2000) ambos produzidos pela jornalista e crítica romana Simonetta Persichetti que totalizam apenas 36 fotógrafos, entrevistados e com um pequeno portfólio.

Outros volumes como "Fotografia da arte brasileira séc.XXI" (Cobogó, 2013) e "Outras fotografias na arte brasileira séc. XXI" (Cobogó, 2015) organizados pela parisiense Isabel Diegues, fundadora da editora, trazem mais de 70 autores. Sendo assim, "História da Fotografia autoral e a pintura moderna", se reveste de certo ineditismo ao incluir em seus verbetes autores internacionais e brasileiros ou que atuaram no Brasil, lado a lado.

Claudio Edinger é autor de respeito com cerca de 18 fotolivros publicados, muitos deles premiados internacionalmente, também publicou um romance, "Um swami no Rio" (E Editora, 2009) e com uma inserção consagrada no mercado de arte brasileiro, portanto intimamente ligado as diferentes manifestações artísticas que balizam a publicação. Segundo ele, traz uma visão do discurso aristotélico, embasada no Ethos, a questão da ética, do caráter, ou seja, sabendo quem é o autor podemos mudar nossa opinião diante da obra. O Logos, a lógica da imagem, composição, a captura do instante em particular, sua iluminação e o Páthos, o apelo emocional, e finalmente adiciona aos 3 a Novitás, a tal originalidade. No entanto, diz ele, para ser original é preciso saber quem veio antes.

Os fotógrafos foram escolhidos por serem autorais, aqueles que influenciaram e foram influenciados pelas artes plásticas, ou seja “os fotógrafos e pintores a partir da idade moderna que revolucionaram a arte praticada hoje. Fotógrafos cujas criações espelham de uma forma particular quem são.” Mais incisivo, ele afirma que cada escolha representa sua preferência pessoal,  usando como critério a originalidade de cada trabalho, acreditando que isso possa ser um ponto de partida para se criar referências.

Ainda que tratemos com a parcialidade e o entendimento pessoal do autor, Edinger nos verbetes internacionais se mantém no mainstream da fotografia, ou seja autores que dificilmente podem ser contestados pela sua contribuição ao meio, o mesmo vale para os pintores como o inglês William Turner (1775-1851) ou o francês Eugene Delacroix (1798-1863). Em relação a este último, o autor faz a ligação com o fotógrafo Eugène Durieu (1800-1874) que largou a pintura para fotografar, passando a colaborar com o amigo produzindo imagens de base para as suas famosas pinturas de odaliscas dos anos 1850.

Igualmente importante é a presença do sueco Oscar Gustave Rejlander (1813-1875) pioneiro nas fotomontagens, autor de Two ways of life, de 1857 que traz 32 imagens em sua fusão, algumas décadas antes da famosa e bem humorada montagem “Os 30 Valerios”, de 1901, do fluminense Valério Vieira (1962-1941) que também ganhou seu verbete. O fotógrafo também foi uma importante influência na obra da inglesa Julia Margaret Cameron (1815-1879), uma mulher a frente de seu tempo, celebrada por seus portraits de grandes personalidades que com ela conviveram.

Da mesma forma que Delacroix vemos o pintor inglês Dante Gabriel Rosseti (1828-1882) utilizar a fotografia do irlandês John Robert Parsons (1826-1909) como referência para o sua pintura retrato de Jane Morris, de 1865. Embora nos verbetes nacionais, que são cerca de 60 autores, não constem muitos fotojornalistas, por motivos óbvios, os nomes de dois precursores do meio como o americano Mathew Brady (1822-1896) e o escocês Alexander Gardner (1821-1882) estão registrados, como na maioria das compilações internacionais.

Avançando no tempo, a menção ao genial russo  Kazimir Malevich (1879-1935) que pesquisava os planos de visão fora dos paradigmas da pintura, se aproximam de nomes que figuram no panteão como o luxemburguês Edward Steichen (1879-1973) fotógrafo e um dos primeiros curadores de fotografia do Museum of Modern Art (MoMA) de Nova York, bem como conexões do malaguenho Pablo Picasso (1881-1973) com imagens africanas que o teriam inspirado a criar a sua tela, epítome do cubismo, Les Demoiselles de Avignon (1907).

Edward Hopper (1882-1966) pintor americano ícone da vida moderna americana se conecta com seus conterrâneos mais contemporâneos Philip-Lorca DiCorcia e Greg Crewdson. Ou a  importância do casal alemão Becher, Bernd (1931-2007) e Hilla (1934-2015) na participação da chamada Escola de Düsseldorff, de onde saíram os alemães Candida Höfer , Andreas Gursky, Thomas Struth e Thomas Ruff, estrelas da atual arte fotográfica de patamares de 7 dígitos, que se somam os grandes naturalistas como o americano Richard Misrach, cujas belas paisagens (apesar de serem críticas ecológicas) se aproximam do paulista Caio Reisewitz em sua grandiosidade romântica.

O francês Henri Cartier-Bresson (1908- 2004) certamente continua sendo uma unanimidade contemporânea ( não burra) e talvez figure com o maior número de páginas, 4 dedicadas a sua obra refinada e essencial. Em contrapartida, fotógrafos de gosto mais popular como as americanas Annie Leibovitz, Vivian Maier (1926-2009) e Francesca Woodman (1958-1981) e os brasileiros Sebastião Salgado, Vik Muniz, Araquém Alcântara e  Gabriel Wickbold,  tambémganhem seu espaço.

Longe da popularidade da maioria, Edinger também ressalta a obra de autores fundamentais como os japoneses, Hiroshi Sugimoto, Eikoh Hosoe e Shomei Tomatsu, os tchecos Josef Koudelka e Jan Saudek, os africanos Okhai Ojeikere (1930-2014) e Malik Sadibé (1936-2016), os geniais fotógrafos que mudaram a paisagem da América, como os americanos Garry Winogrand (1928-1984), Lee Friedlander e William Eggleston mas deixa de fora (SIC) o suíço Robert Frank, bem como os importantíssimos modernos brasileiros como Geraldo de Barros (1923-1998), José Oticica Filho (1906-1964) e o húngaro Thomaz Farkas (1924-2011) mas não inclui (SIC) o celebrado paulista German Lorca.

Longe de abarcar a totalidade brasileira, como o próprio autor se manifesta, ele assume uma atitude mais democrática, ao reunir fotógrafos como os cariocas Claudia Jaguaribe e Rogério Reis, os paraenses Rogério Assis e Luiz Braga, o  mineiros Pedro David e Eustáquio Neves, os paulistas Cristiano Mascaro e Penna Prearo, os baianos Walter Firmo e Mario Cravo Neto (1947-2009), entre tantos outros integrantes de grandes acervos como a coleção MASP-Pirelli, o acervo do Museu de Arte Contemporênea da USP (MAC-USP) ou do Museu de Arte Moderna (MAM), com fotógrafos em ascensão como as paulistas Betina Samaia, Sheila Oliveira e Tina Gomes entre outros.

O compêndio produzido por Claudio Edinger não privilegia somente pintores e fotógrafos mas traz verbetes de badalados pensadores próximos a fotografia como o alemão Walter Benjamin (1892- 1940), o tcheco Vilém Flusser (1920-1991) e a americana Susan Sontag (1933-2004). Mais distantes dos estudantes da imagem, estão o escritor paulista Mario de Andrade (1893-1945), pioneiro da fotografia modernista brasileira, o romancista tcheco Franz Kafka (1883-1924) que dizia que “nada engana tanto como uma fotografia” entre outras frases garimpadas pelo autor, e o filósofo austríaco Ludwig Wittegestein (1889-1951) que não escreveu nada sobre o meio mas, segundo o catarinense Guilherme Ghisoni, professor de filosofia e fotógrafo, um dos autores no livro, era um praticante da “fotografia Galtoniana” (desenvolvida pelo antropólogo e metereologista inglês Francis Galton (1822-1911) que além de inventar o mais que controverso conceito de eugenia, desenvolveu o método de sobreposição de vários retratos sobre a mesma imagem, tendo em vista mostrar traços comuns).

São mais 600 ilustrações, cerca de 350 fotógrafos e pintores, que também incluem movimentos ou escolas cadastrados no índice remissivo, destes pouco mais de 60 são autores brasileiros ou atuantes no Brasil. Certamente ainda que em sua incompletude intrínseca, pois certamente o leitor mais afinado com a nossa produção sentirá falta de nomes importantes, é um livro de referência com suas informações factuais, explicações sumárias e objetivas, notas biográficas, como diz Agnaldo Farias, “com insights luminosos sobre a correspondência entre pintura moderna e fotografia…”

O lançamento do livro acontece dia 23 de fevereiro, a partir das 11hs, na Galeria Lume, rua Gumercindo Saraiva, 54, Jardim Europa em São Paulo. O livro já está a venda pela Ipsis, através do email pub@ipsis.com.br e vem autografado pelo autor. Pode ser enviado para todo o país.

*Leia mais sobre Claudio Edinger no blog de Juan Esteves em livro "Machina Mundi as engrenagens do tempo" (Ed.Bazar do tempo, 2017) ou "O paradoxo do olhar" (Ed.Madalena/Ed.Terceiro Nome, 2015). 

Imagens © autores. Texto © Juan Esteves

Sobre Juan Esteves
Nascido em Santos, SP, é fotógrafo e jornalista há 30 anos. Escreveu para o caderno Ilustrada da Folha de S.Paulo, onde foi fotojornalista e editor de fotografia. Foi colunista da revista Iris Foto e do portal Fotosite, onde também foi editor, além de colaborar com diversas revistas como a SeLecT, Santa Art Magazine e Fotografe Melhor. Suas imagens já foram publicadas pelas editoras Penguin ( Inglaterra), Rizzoli ( Itállia), Autrement ( França) Editorial Crítica ( Espanha), Rive Gauche (China) e Yale University (EUA) entre outras.

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