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Blog do Juan Esteves: Faltam Mil Anos de História > Gabriel Carpes

por Juan Esteves

No livro Faltam Mil Anos de História (Ed. Tempo d'Imagem, 2019), o fotógrafo gaúcho Gabriel Carpes transita pelos anos 2016 a 2018. Época conturbada da política e da sociedade brasileira com o impeachment da presidente Dilma Roussef no final de 2016, a entrada de vice Michel Temer em seu lugar assumindo como presidente; a prisão do presidente Lula em abril de 2018 e as perspectivas nada animadoras para as eleições que se seguiriam em uma das polarizações mais desmedidas da história da república.

A publicação foi selecionada na quarta edição do Prêmio Foto em Pauta para livro de Fotografia, realizado pelo Festival de Fotografia de Tiradentes, a editora Tempo d'Imagem e a Gráfica paulista Ipsis, uma escolha feita pelo júri formado por André Penteado, fotógrafo; Eugênio Sávio, diretor do Festival; Isabel Santana Terron, editora; Márcia Blanco, diretora da Ipsis, Sofia Fan, diretora do Itaú Cultural e Tiago Santana, fotógrafo e sócio da Tempo d'Imagem, entre 86 projetos inscritos vindos de fotógrafos de 27 municípios, cerca de 13 estados brasileiros.

Diferentemente do que a maioria acompanhou em múltiplas mídias, o livro traz uma única imagem de passeata e bem fechada, dispensando ruas lotadas, procissões ou protestos que acabaram em festa ou violência policial. Um relato mais instrospectivo pelos meandros da nossa sociedade, traduzido em cenas brasileiras e portraits de personagens que não apareceram nos jornais nem na TV ou como o autor melhor explica: "As fotografias retratam os sentimentos de abandono e tristeza que tomaram conta do nosso país à medida que manifestam na realidade a marca que a crise deixou em nós."

Na cadência absoluta do fotolivro contemporâneo, onde as imagens não são reconhecidas por uma beleza explícita e sim pelas analogias que seu possível conteúdo podem criar, a publicação também tem andamento mais conceitual cujo entendimento é atrelado ao reconhecimento pela possibilidade de uma estesia do leitor.

Em um conjunto de retratos, imagens arquitetônicas externas e seus interiores, unidas à paisagens urbanas, Carpes agrupa uma série de alegorias que situam-se distantes de outros fotolivros cujo hermetismo nos assombra e cuja problematização fica aquém de uma boa digressão. Nas sutilezas perceptíveis vemos uma simbologia que compõe uma tessitura bem organizada que dispensa um vocabulário de maior lastro.

Repartições de vazio humano e a evidenciada decadência física; o discurso vestigial equilibrado em pequenas notas como as cores da bandeira nacional na fachada de uma casa, um muro pintado de preto, o homem e um poster de armas na parede, uma casa com suas aberturas lacradas, arames farpados em profusão ou uma toalha de mesa com desenhos da bandeira do Brasil, compõem uma partitura de acordes claros.

No corolário, segundo o autor, "escritórios do governo que se sentem abandonados em um estado de decadência, edifícios residenciais de classe média que exibem a desigualdade e medo, monumentos para ídolos do passado e retratos de pessoas afetadas pela crise." Imagens que, segundo ele, trabalham a melancolia da situação do país naquele momento (e que certamente perpetua-se), em uma espécie de ressaca dos tumultos e caos anteriores.

Ausentes na publicação, mas presentes no site do autor temos narrativas mais inclusivas ao conteúdo dos retratados como Moussa, um senegalês que trabalha em T.I. e que veio para o Brasil para melhorar a vida da família. Ele ganha pouco e lamenta a discrepância entre o real e o dólar. Já fez de tudo, de limpador de piscina a vendedor de rua. Personagem fotografado de maneira straight, como os demais, simboliza uma infinidade de imigrantes e brasileiros que procuram contornar a crise econômica nacional.

Noções e experiências de esvaziamento e descontinuidade da sociedade, de certa forma, tomam o lugar da lógica rotineira desafiando a racionalidade e também a percepção do entendimento mais completo e complexo de um período marcante da crônica nacional. Um incitamento ao percurso do nexus fotográfico, já encontrado em outros fotolivros como "Missão Francesa" (Editora Madalena, 2017) de André Penteado (confira a review).

Ambas publicações se acomodam na temática mais presente da nossas experiências históricas que se traduzem em imagens e abdicam da informação textual, um agônico processo em andamento na construção da produção fotográfica mais autoral. Entretanto, ambos se completam na busca vestigial pela compreensão da nossa identidade "ainda que ocorram em uma linguagem imagética limitada para este empreendimento de notável amplitude” como já escrevi no review anterior encontrado no link acima.

“Estes são os capítulos intermediários da História, um período de espera para o próximo grande evento enquanto vemos o passado desmoronar ao nosso redor”, declara o fotógrafo que acredita que, através de seu meio, transita por uma realidade cuja narrativa é essencialmente visual, procura capturar fragmentos de um presente, que possivelmente serão reverberados no futuro.

Contradizendo a idéia da perenidade da imagem, uma parede repleta de retratos na assembléia legislativa surge no paradoxal uso da mesma formando uma coleção de anônimos. Como nesta imagem, o fotógrafo obriga o leitor a se inclinar para os múltiplos metadados que ele apresenta. Em um interessante jogo de antagonismos em um banner jazem os retratos da ex premier inglesa Margareth Thatcher (1925-2013), a dama de ferro, e ao seu lado o historiador e sociólogo propagador do liberalismo clássico, o alemão Ludwig Von Mises (1881-1973).

Há um bem construído fluxo de contrastes complementares, como imagens que opõem um modesto salão de beleza “Beauty Salon” da periferia a uma série de casas do projeto Minha casa minha vida. A fotografia do lider negro americano Martin Luther King (1929-1968) e o retrato do personagem Valderi, trajado com as cores vermelhas da Central Única dos Trabalhadores (CUT) no que parece ser um acampamento, a sacramentar o sincretismo nacional em algum ponto de Porto Alegre, cidades do Rio Grande do Sul ou de São Paulo.

Gabriel Carpes, passou estes dois anos imerso na cultura política e na busca pela compreensão da sociedade. O período compreendido entre 2016 e 2018 (embora não explicitado no livro) se apresenta como revelação do pequeno espaço temporal em que as imagens se estabelecem, fornecendo subsídios à compreensão de sua narrativa. Para ele, fotografar também se constituiu em um exercício democrático e plural na discussão do momento político, entre as diferentes vozes que compõem este debate.

Certamente, em sua palette melancólica onde há um raro vestígio do sol, reforçada pelo fosco papel Munken Print White, acomodam-se as frustrações de um país imerso em suas impossibilidades e obstáculos incontornáveis. Como o autor mesmo escreve, temos uma “longa sensação de quarta-feira de cinzas, o céu está nublado, a praia está suja, e a única memória desse tempo será a ressaca.” Ou melhor ainda, “fomos deixados a deriva e com um futuro incerto.” E, no entanto, parafraseando Galileu Galilei, nos movemos adiante, pois ainda faltam mil anos de história...

Imagens © Gabriel Carpes. Texto © Juan Esteves.

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