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Blog do Juan Esteves: Cordão > Eduardo Queiroga

por Juan Esteves

Desde 2008 o fotógrafo pernambucano Eduardo Queiroga veio fotografando parteiras em seu estado. O resultado é o livro Cordão (Ed. Zoludesign, 2018) com incentivo do Funcultura e Fundarpe. O texto é da professora Fabiana Moraes, do Núcleo de Design e Comunicação (NDC) do Centro Acadêmico do Agreste (CAA) da Universidade Federal de Pernambuco, onde o autor tem seu mestrado e doutorado em Comunicação. O peculiar design do livro, que fecha com um cordão enrolado, uma remissão ao seu assunto, é de Luciana Calheiros e Aurélio Velho.

Em um texto não acadêmico e próximo do lírico, Fabiana Moraes define bem o que são e o que fazem as mulheres retratadas: “para além das coisas do mato, as parteiras cuidam das mães fazendo a necessária conexão com o intangível. Quando chega a hora do parto, preparam um cordão e o colocam no pescoço da gestante, uma oração pendurada nele. Neste momento, no quarto (ou em qualquer outro lugar) o ambiente recebe também a presença de Jesus Cristo. De Nossa Senhora do Bom Parto. De Nossa Senhora das Montanhas, de Santa Margarida. Estão todos e todas ali enquanto aquelas mulheres imensas, aliviam dores e fazem nascer.”

Impressas pela gráfica Ipsis no papel Munchen Lynxs Rough de apenas 120g, as imagens de Queiroga ganharam seu peso verdadeiro no trajeto por Recife, Caruaru, Igarassu, Ipojuca, Jaboatão dos Guararapes, Palmares e Trindade e Aldeias Kapinawa, Pankararu e Xukuru. Adentram a publicação situando o leitor primeiramente ao seu ambiente, o papel fosco alivia a dureza da luz pernambucana mas sem evitar as sombras plenas, conciliando o matiz telúrico do entorno que ora reforça o agreste, ora uma leve urbanidade.

“O cordão umbilical é aquele que liga a mãe à sua cria, que a alimenta e dá energia para seu desenvolvimento, possibilita fluxos vitais.” conta o fotógrafo, que continua descrevendo a operação do cordão: “Se o cordão é o fluxo, o cordão também é aquele que o estanca para a criação de novos cursos: para cortar o cordão umbilical, a parteira antes amarra dois pedaços de barbante de algodão, para interromper a comunicação entre bebê e placenta e permitir o corte." Uma obra que, segundo ele, traz simbologias importantes “seu cessar e o início de novas possibilidades.”

Embora o livro procure incorporar o seu conceito ao design do objeto, se adequando ao mainstream do fotolivro contemporâneo, o posicionamento vertical das dobras, com uma quantidade grande de imagens horizontais, bem como as duas capas que se fecham em lombadas quadradas, sacrificam o fluxo de leitura e a boa edição realizada por Ana Lira.

Cordão mostra uma série de parteiras, mas sem identificá-las diretamente. Entretanto, são imagens que reforçam a ideia de força e tenacidade do seu mister. Estão ora a céu aberto, ora banhadas pelos raios do sol que entram pelas janelas, em casas de sapé ou alvenaria. Pisam às vezes no chão bruto descalças ou calçadas, mas sempre altivas em uma relação harmônica com o fotógrafo. Apenas uma das imagens traz um bebê mostrando o seu cordão enrolado no umbigo já cortado. Em qualquer situação, o clima é de celebração de vida, a evidência direta da importante fotografia de Queiroga.

Os relatos de Fabiana Moraes também oscilam pela narrativa mais feliz e momentos mais difíceis que emocionam, como o relato de Zefinha, hoje aos 74 anos: "Se eu soubesse o que aprendi depois, ele não teria morrido.” Ela entrou pela primeira vez para o parto quando tinha 26 anos, mas depois foi aprendendo ao longo da vida. Somente uma vez, há 10 anos, ao longo de seu aprendizado ela viu mais uma criança morrer logo após o parto. “Eu não pude fazer nada, o bebê chegou muito sofrido. Fazia tempo que a bolsa tinha estourado e a mãe veio de longe, sufocou.”

Hoje, narra Fabiana Moraes, as parteiras as vezes passam 6 meses sem fazer um parto, quando antes faziam vários em uma semana. No Brasil, só em 2017 cerca de 60% dos partos foram cesarianas e 44,5 normais. Portanto a necessidade de não se perder um bebê é quase uma questão política, diz a professora. Apesar disso, “esse saber é cortejado, respeitado.” Hospitais e secretarias de saúde tem esse respeito, apesar de instável por depender da gestão e da política.

Fato é que, independente da projeção de sua imagética, o livro, cuja ideia surgiu nos últimos 3 anos do trabalho, colabora além das imagens para a discussão mais ampla do assunto, principalmente em um país onde as políticas de saúde estão longe de serem ideais até  mesmo nos centros onde a economia é mais estruturada. É um desdobramento do projeto Saberes e Práticas das Parteiras de Pernambuco,  iniciado dentro do Instituto Nômades, de Recife, organização civil que atua na promoção da saúde e da educação popular.

Imagens © Eduardo Queiroga. Texto © Juan Esteves.

O conteúdo está disponível em Audiodescrição e Libras e você pode adquirir o livro agora! Saiba mais sobre o projeto e sobre o Instituto Nômades.

Sobre Juan Esteves
Nascido em Santos, SP, é fotógrafo e jornalista há 30 anos. Escreveu para o caderno Ilustrada da Folha de S.Paulo, onde foi fotojornalista e editor de fotografia. Foi colunista da revista Iris Foto e do portal Fotosite, onde também foi editor, além de colaborar com diversas revistas como a SeLecT, Santa Art Magazine e Fotografe Melhor. Suas imagens já foram publicadas pelas editoras Penguin ( Inglaterra), Rizzoli ( Itállia), Autrement ( França) Editorial Crítica ( Espanha), Rive Gauche (China) e Yale University (EUA) entre outras.

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