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Blog do Juan Esteves: Claudia Andujar > A Luta Yanomami

por Juan Esteves

Claudia Andujar nasceu Claudine Haas (nenhum parentesco com o célebre fotógrafo austríaco Ernst Haas (1921-1986) em Neuchâtel, Suíça, em 1931. Cresceu na região de Oradea, atual Romênia. Depois que seu pai e família foram assassinados nos campos de extermínio nazistas de Dachau e Auschwitz em 1944,  escapou com sua mãe de volta para seu país natal. Sozinha, foi morar com um tio nos Estados Unidos, trabalhando como guia na ONU, em Nova York, cidade em que desenvolve interesse pela arte.  O reencontro com sua mãe foi em São Paulo, no início de 1955, onde radicou-se.

De 1966 e 1971 Andujar (o sobrenome é do seu primeiro marido e amigo dos tempos de escola, o espanhol Julio Andujar), trabalhou na icônica revista Realidade, marco do “new journalism” feito no Brasil, que trazia textos na mistura de uma narrativa jornalística e literária, recheada de grandes ensaios fotográficos produzidos por ela e por grandes fotógrafos, como o baiano Walter Firmo e o americano David Drew Zingg (1923-2000). Na publicação estavam também sua amiga Maureen Bisilliat, inglesa, (com quem passaria uma temporada nos Estados Unidos), o italiano Luigi Mamprin (1921-1995) e o americano George Leary Love (1937-1995) seu companheiro de vida e parceiro em muitos trabalhos.

Claudia Andujar - A Luta Yanomami (IMS, 2018) tem mais de 300 páginas, e foi organizado por Thyago Nogueira, coordenador de fotografia contemporânea do Instituto Moreira Salles e sua assistente Valentina Tong, que trazem o relato deste percurso extraordinário, entre a luta que se põe diante da tragédia e a preservação dessa cultura exemplar amazônica. Ele também assina a curadoria da exposição que traz 300 imagens, em cartaz até abril de 2019 na sede paulista.

Foto: Claudia Andujar.

Mais do que uma fotógrafa, ela se tornou uma ativista pela causa Yanomami quando em 1971 os fotografou pela primeira vez para a Realidade. Um encontro que a faria retornar inúmeras vezes ao território desta etnia, que então ainda vivia relativamente  isolada. Às suas primeiras viagens se somaram o interesse por essa cultura, levando-a ao amadurecimento de seu trabalho bem como seu envolvimento definitivo na luta pela preservação de sua população e região. Andujar recebeu deles o nome de Napëyoma, “a mulher branca”.

“Foram quase 3 anos indo a casa da fotógrafa e pesquisando seu arquivo”, conta Thyago Nogueira, que de início procurou o entendimento da escala monumental de sua obra, debruçando-se entre 40 mil imagens. Para ele, poucas pessoas se dedicaram tanto a essa questão em uma avalanche de eventos. Também ressalta o “encontro histórico” na abertura da mostra com a presença da fotógrafa, do xamã yanomami Davi Kopenawa e do missionário italiano Carlo Zacquini, companheiros dela nessa verdadeira epopeia.

Foto: Claudia Andujar.

Apenas para se entender uma parte da história, no início dos anos 1970 no âmbito do Plano de Integração Nacional o governo da ditadura militar, liderado pelo general Médici (1905-1985), começa a construção de um trecho da Perimetral Norte entre 1973 e 1976 e uma política de colonização pública ( 1976 a 1978) que literalmente invadiram o sudeste das terras dos Yanomami.

Em meio a esta onda supostamente progressista, típica da década, veio a contaminação das aldeias, alcoolismo dos seus habitantes, mortes entre indígenas e colonos, que colocam Claudia Andujar diante de um dilema entre só fotografar ou salvar essa comunidade, resultando na sua expulsão da região pela Fundação Nacional do Índio (Funai), criada em 1967 durante a gestão do general Costa e Silva (1889-1969).

No final dos anos 1970, a fotógrafa articula com intelectuais e volta a região como ativista e juntamente com Carlo Zacquini, da Missioni Consolata (com os Yanomami desde 1965) e o antropólogo francês Bruce Albert criam a Comissão pela Criação do Parque Yanomami. Foram 13 anos de luta contra forças econômicas poderosas. “uma batalha incansável pela demarcação contínua da terra indígena, vista como a única maneira de garantir a sobrevivência dos Yanomami e seu ecossistema.” Finalmente, em 1992, a terra foi homologada às vésperas da conferência-geral da ONU sobre o clima (Rio 92), revelando não somente uma grande fotógrafa mas uma  articuladora muito hábil.

Foto: Claudia Andujar.

A exposição "Claudia Andujar - A Luta Yanomami" e o lançamento do alentado catálogo homônimo, se reveste de um momento oportuno em prol da etnia, quando a nova direção do país ameaça intervir mais uma vez na região. A Funai, por exemplo, está sob controle da controversa paranaense Damares Alves, do Ministério da Mulher, Familia e Direitos Humanos, que também é pastora evangélica. Pensamos então na participação engajada de uma fotojornalista e em como a sua fotografia passou a instrumentalizar a mobilização política que ultrapassou as fronteiras enveredando por programas de educação e saúde, bem como se acomodando no perfil da arte contemporânea, com imagens em acervos como o Museum of Modern Art (MoMA) de Nova York e o Centro de Arte Contemporânea de Inhotim (CACI).

Antes de chegarmos nesta publicação do IMS, os Yanomami já tinham aparecido na bela edição Yanomami (DBA, 1998) (que hoje chega ao valor de 900,00 reais nas listas dos sebos SIC), na  antologia A Vulnerabilidade do Ser (Cosac e Naify, 2005) e no livro Marcados (Cosac e Naify, 2009) uma coleção de retratos que surgiram de anotações para um registro médico. Era necessário identificá-los e uma placa era pendurada no pescoço, como aqueles números de plástico nos retratos dos passaportes ou das fichas criminais da polícia.

Dificil não fazer um paralelo ao Holocausto, as marcas começam em 1944 com a estrela de Davi - costurada nos trajes de seus pares, mais precisamente no peito deles, amarela e bem visível. Deste tempo de crueldades restou um retrato de um colega da escola por quem Andujar  se apaixonou, guardado por muitos anos. Peças que ainda reverberam na fotógrafa e que foram acolhidas ao longo de sua importante obra (leia também a review sobre o livro Marcados).

Foto: Claudia Andujar.

A parceria entre Thyago Nogueira e Claudia Andujar iniciou-se em 2012 quando ela mostrou interesse em produzir mais um livro sobre os Yanomami. Entretanto o editor preferiu lançar como primeiro livro da instituição No Lugar do Outro (IMS, 2015) contando a sua carreira jornalística mais ampla, precedendo este A Luta Yanomami.

Nesta publicação, o recorte da revista Realidade é surpreendente ao mostrar momentos históricos do fotojornalismo como a matéria com o médium “Zé Arigó”, publicada em junho de 1967, com texto do psiquiatra e jornalista Roberto Freire (1927-2008). Vivendo em Congonhas do Campo, Minas Gerais, José Pedro de Freitas (1921-1971) era um médium curador conhecido internacionalmente que trazia milhares de pessoas para cirurgias polêmicas (leia a review sobre a publicação No Lugar do Outro).

As imagens dos Yanomami certamente ocupam o centro da obra da fotógrafa, tanto em exposições como em publicações. Luta Yanomami é uma antologia que inclui desenhos, narrativas mais detalhadas dos envolvidos, como a do antropólodo Lambert, mapas, um projeto gráfico mais contemporâneo feito por Elisa Von Randow e Julia Mazagão, sustentando pela impressão em diferentes tipos de papel, como Munken Linx Rough, Pólen e Eurobulk, produzido pela gráfica Ipsis que dão suporte as diferentes experiências fotográficas criadas por Andujar, como aberrações cromáticas ou distorções que se acomodam ao preto e branco mais tradicional.

Foto: Claudia Andujar.

A  nova publicação é adequada aos ditames dos atuais fotolivros, valorizando mais o objeto como conjunto gráfico, entretanto creio que a mesma não ultrapassa o design mais clássico, com imagens mais abertas da edição francesa Yanomami la danse des images (Marval, 2007). Com a vantagem de ter um conjunto em cor que esta não tem, o livro brasileiro abdica de algumas imagens fundamentais nela publicadas, como os contundentes registros dos xamãs Noë e Davi Kopenawa em um ritual com o pintor gaúcho Glauco Pinto de Moraes doente na aldeia de Watoriki-theri, em 1986.

Desta bela edição publicada na França, a atual faz uso do texto do jornalista paulista Álvaro Machado como fonte. Também não traz a ótima fortuna crítica encontrada em A Vulnerabilidade do ser com textos do curador italiano Pietro Maria Bardi (1900-1999) e do curador e historiador da arte capixaba Paulo Herkenhoff, que certamente enriqueceriam ainda mais o livro.

A exposição, que vai até o dia 7 de abril, ocupa dois andares no IMS, mostra, como no livro, imagens de 1971 a 1977 em Catrimani, Roraima, onde Andujar acompanha o dia a dia na floresta, rituais xamânicos e retrata os Yanomami com a ajuda do missionário Carlo Zacquini, que vivia há tempos entre eles. Um interesse jornalístico que se tornou antropológico, como bem observa Thyago Nogueira em sua rica  pesquisa.

Foto: Claudia Andujar.

As primeiras viagens de Andujar ao território Yanomami, sua aproximação com a nova cultura trazem o amadurecimento do trabalho conforme ela passava mais tempo na floresta. Com a ajuda de Zacquini, a fotógrafa pode aprofundar-se na rotina, acompanhar viagens, festas e expedições de caça. Ela descreve em um audio em plena mata: “É claro que cortar um animal é algo sangrento, mas, não sei, acho que já me acostumei com isso, não me choca mais e nem acho estranho. É o jeito que as coisas são." As transcrições da fala da fotógrafa é um ganho na edição.

Importante também é uma nova versão da instalação Genocídio do Yanomami: Morte do Brasil (1989-2018) um audiovisual em 16 telas. Inicialmente uma reação ao decreto do maranhense José Sarney - na presidência até 1990, após a morte de Tancredo Neves (1910-1985), eleito indiretamente para o cargo, do qual era vice - que demarcava a terra em 19 “ilhas isoladas”.

Registrado em stills no livro, o “Genocídio” é uma experiência gráfica quase lisérgica com imagens de arquivo de 1972 a 1981. Assim como encontramos em Maureen Bisilliat, a obra de Claudia Andujar é marcada pelo posicionamento de  vanguarda, ora na exploração da cor como forma, em uma extrema expansão gráfica que se afasta do documentarismo mais convencional, ora em uma inserção experimental mais ousada apoiada pelos visionários editores da revista Realidade, que avalizaram seu progresso permanentemente.

Curiosamente, em seus experimentos, Andujar até mesmo recorre a apropriação de imagem, uma postura bem contemporânea, entre conhecidos artistas como os americanos Sherrie Levine ou Richard Prince, ao usar um flagrante publicado em agosto de 1993 pelo fotógrafo paulista Ormuzd Alves, na Folha de S.Paulo, registrando o xamã Davi Kopenawa, com pintura de guerra, logo após o massacre de Haximu, uma imagem na qual ela interfere com um ligeiro brilho no centro (infelizmente o crédito exato ficou perdido no final do livro na descrição das imagens).

Foto: Claudia Andujar.

Em 1959, Claudia Andujar procurou a revista O Cruzeiro para oferecer seu trabalho. Foi rejeitada, como conta Thyago Nogueira. Ela recorda: “O redator, me lembro muito bem, falou para mim: 'Você acha que foi você que descobriu os índios?' Era Jorge Ferreira, nunca vou esquecer. 'Mulher aqui não tem lugar, mulher não pode ser fotógrafa'". O curso da história foi corrigido, a revista fechou em 1975 e ela continuou seu importante trabalho conhecido mundo afora.

Jorge Ferreira, no dizer de Accioly Neto (1906-2001 ), publicitário e diretor da revista O Cruzeiro por muitos anos, era “o repórter das viagens perigosas, descobrindo tribos de índios desconhecidos no Rio das Mortes, enfrentando a densa selva amazônica.”* Daí certamente essa postura  machista execrável até mesmo para época. Irônico é que alguns dos grandes momentos do jornalista estão celebrados no livro As origens do fotojornalismo no Brasil, Um Olhar sobre O Cruzeiro, 1940/1960, publicado pelo IMS em 2012, por ocasião da exposição de mesmo nome, organizada pelos curadores Helouise Costa, do MAC-USP, e Sergio Burgi, coordenador de fotografia do instituto.

Ficamos então com esta declaração da fotógrafa que define bem sua relação: “Estou ligada ao índio, à terra, à luta primária. Tudo isso me comove profundamente. Tudo parece essencial. Talvez sempre procurei a resposta à razão da vida nessa essencialidade. E fui levada para lá, na mata amazônica, por isso. Foi instintivo. À procura de me encontrar.”

* Cadernos da Comunicação/ Série Memória/ 2012, Secretaria Com.Rio de Janeiro em “O Cruzeiro a maior e melhor revista da América Latina.”

"Claudia Andujar – A luta Yanomami" teve apoio e consultoria do Instituto Socioambiental (isa) e colaboração da Hutukara Associação Yanomami (hay).

Sobre Juan Esteves
Nascido em Santos, SP, é fotógrafo e jornalista há 30 anos. Escreveu para o caderno Ilustrada da Folha de S.Paulo, onde foi fotojornalista e editor de fotografia. Foi colunista da revista Iris Foto e do portal Fotosite, onde também foi editor, além de colaborar com diversas revistas como a SeLecT, Santa Art Magazine e Fotografe Melhor. Suas imagens já foram publicadas pelas editoras Penguin ( Inglaterra), Rizzoli ( Itállia), Autrement ( França) Editorial Crítica ( Espanha), Rive Gauche (China) e Yale University (EUA) entre outras.

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