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Blog do Juan Esteves: Cenas venezianas > Francisco de Andrade

por Juan Esteves.

 

Já dizia o veneziano Marco Polo (1254-1324) ao mongol Kublai Khan (1215-1294), que tinha medo de falar sobre Veneza. “Uma vez que as imagens da memória, sejam fixadas em palavras, elas são apagadas.” A narrativa é do cubano Italo Calvino (1923-1985) em seu genial livro Cidades Invisíveis. “Talvez eu tenha medo de perder Veneza de uma só vez, se falo disso, ou talvez, falando de outras cidades, já a perdi, pouco a pouco.” arremata o histórico aventureiro.

Em Cenas Venezianas (Editora Origem, 2019), o paraibano Francisco de Andrade navega por águas complexas cujo imaginário, como vemos, é ilimitado. Em parte porque trata de uma das cidades mais comentadas e fotografadas do mundo e por outro lado, um evento também basicamente institucionalizado como sua paisagem e o seu famoso “carnaval.” Desafio grande para este advogado que tem na fotografia uma paixão antiga. Talvez, deste desprendimento como diletante, possa residir certa beleza de seu primeiro livro.

Um grupo de uma centena de ilhas no Mar Adriático, Veneza está separada por canais e pontes, abrigando uma paisagem única em meio a uma arquitetura que acolheu navegadores e mercadores com seu apogeu no século XIII. Pela sua antiguidade, há um consenso histórico de que incia-se no século V, povoada por egressos de Padua ou Aquileia, dominadas por romanos, que fugiam das sucessivas invasões de hunos e germânicos na Península Itálica. Com um fluxo turístico gigantesco e o esfacelamento de suas contruções pela água do mar, resultando no epítome da decadência europeia, continua - ainda assim, sendo algo inestimável pela sua beleza e conteúdo artístico, como se observa neste livro.

Francisco de Andrade levou 4 anos fotografando a cidade, seus canais, arquitetura e pricipalmente seu carnaval, uma série de retratos de rua, personagens trajados com pompa e circunstância e o revival de seus bailes seculares. Em um primeiro momento, seu trabalho foi impresso em apenas 5 volumes pelo processo digital da Gráfica Ipsis, ganhando o prêmio Pine de melhor livro impresso neste sistema. A atual edição, de mil exemplares, traz impressão rotativa e o processo +Color, onde, segundo o editor paulistano Valdemir Cunha, "as cores foram acentuadas ganhando mais profundidade cromática que torna o livro como referência em impressão.“ O texto é o do jornalista paulista Xavier Bartaburu.

Veneza sempre mostrou grandes artistas, a começar pelo grande Giovanni Antonio Canale, conhecido como Canaletto (1697-1768), pintor dos festivais venezianos e os cenários de sua cidade natal, até o trabalho consagrado do fotógrafo americano Michael O'Neill, "Veneza, a ausência do tempo”, uma série de panorâmicas feitas com negativos de grande formato nos anos 1980, exposto em São Paulo durante o Mês Internacional da Fotografia Nafoto em 1995. São exemplos da atração que o lugar provoca como parte do patrimônio artístico e arquitetônico da humanidade.

A alentada publicação de 300 páginas reflete em sua maior parte o carnaval mais recente, da forma contemporânea, iniciado em 1979, uma festa mais de contemplação de “figuras taciturnas”, que saem a rua nos dias que antecendem a Quaresma, conta Bartaburu, uma releitura de uma tradição secular. O antigo carnaval veneziano, uma festa monumental, diz a lenda, durou 600 anos e teria sido suspenso no século XVIII, com a queda da República em 1797.

Impassíveis e aparentemente sem expressão por conta das máscaras que cobrem o rosto por completo, revelando apenas um breve brilho dos olhos, os “foliões” venezianos não se assemelham aos nossos conhecidos brasileiros. Se existisse uma analogia, estariam mais próximos dos frequentadores dos antigos bailes de fantasias do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, onde reinava o museólogo fluminense Clóvis Bornay (1916-2005), criador do evento em 1937. Os adereços somados ao gestual teatral ocupam o protagonismo em Veneza. É possivel sentir o silêncio no entorno, ou como descreve Bartaburu, “uma comitiva de fantasmas suntuosos, mudos e sem rostos, mas tão eloquentes em seu silêncio."

A eloquência mencionada pelo jornalista é apreendida pelo conteúdo histórico e documental que certamente as atuações resumem, ainda que uma sensação álgida, impassível, se manifeste. Em parte proveniente da relevância do magenta, uma mistura do azul e vermelho, encontrada em muitos trajes, contrapostas ao céu de azul mavioso e poucas contra o tom telúrico, típico das construções venezianas. Algumas inserções de amarelo ouro nos brocados e adereços ainda surgem como contraponto, mas o amparo do gestual imobilizado ocupa a recepção das imagens de maneira mais intensa. Entretanto, o conjunto não deixa de ter sua retórica.

 A edição de imagem de Valdemir Cunha mostrou-se acertada, ao inserir retratos e imagens da paisagem e arquitetura em um belo preto e branco, de contraste acentuado e predominância de sombras e contraluzes. Junto com páginas em cores chapadas de vermelho ou verde, que trazem pequenos excertos literários de grandes nomes, criam "intervalos” que aliviam o andamento monocórdico predominante do conjunto. As imagens foram tratadas pelo fotógrafo e printer paulistano Clício Barroso e a publicação trilingue em italiano, inglês e português será lançada durante o festival Foto em Pauta Tiradentes, em 30 de março, às 19hs.

Imagens © Francisco Andrade. Texto © Juan Esteves.
Pré-venda do livro pela internet: www.editoraorigem.com.br
Leia também as reviews sobre os livros "Minha Pequena Alemanha" (Ed.Origem, 2014), de Valdemir Cunha, e "Sacracidade, Expressões da fé na metrópole" (Ed. Origem, 2017), de Xavier Bartaburu.

Sobre Juan Esteves
Nascido em Santos, SP, é fotógrafo e jornalista há 30 anos. Escreveu para o caderno Ilustrada da Folha de S.Paulo, onde foi fotojornalista e editor de fotografia. Foi colunista da revista Iris Foto e do portal Fotosite, onde também foi editor, além de colaborar com diversas revistas como a SeLecT, Santa Art Magazine e Fotografe Melhor. Suas imagens já foram publicadas pelas editoras Penguin ( Inglaterra), Rizzoli ( Itállia), Autrement ( França) Editorial Crítica ( Espanha), Rive Gauche (China) e Yale University (EUA) entre outras.

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