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Blog do Juan Esteves: À MARGEM > GISELE MARTINS

por Juan Esteves

Os fotógrafos substituíram quase que completamente os chamados artistas viajantes. Um fato inexoravelmente consumado diante das evoluções técnicas do registro documental. É certo também que a transferência de um pincel para uma câmera não tornou seu dono exatamente um artífice, Estes continuam sendo poucos. À Margem (Edição do autor, 2018) da paulista Gisele Martins traz um título duplo. É o registro de algumas margens fluviais da parte brasileira da região amazônica e também por estar à margem da dicotomia artista-fotógrafo.

Escreve o filósofo tcheco Vilém Flusser (1920-1991) que a utilização de um aparato mecânico que produz imagens está no contexto do mundo pós-histórico, ou seja os aparelhos não laboram nem modificam este mundo, bem como a câmera pode ser um aparato mistificador de uma cultura superficial.

Nesta pequena mas atraente edição, a autora não interfere no registro mais exato e próximo da realidade, confirmando a ação e função da câmera  e distanciando-se da visão de cultura mais rasa, ambas acertadamente antecipadas pelo pensador e professor tcheco há décadas. Traz, ao contrário, convivência e interação maior com o espaço e nativos retratados, a proposta de uma produção mais densa e distante da efemeridade que caracteriza a fotografia hoje.

A ideia do registro dos rincões brasileiros se associa a trabalhos mais contemporâneos como Pittoresco, exposição de 2010 no Instituto Tomie Ohtake e a publicação do livro Pittoresco (Edusp, 2015) do paulista Antonio Saggese [leia review no blog do Juan Esteves] e até mesmo da série Viagem Pitoresca pelo Brasil, do paulistano Cássio Vasconcellos de 2016.

Entretanto o adjetivo pitoresco em sua etimologia  refere-se com maior frequência as obras de pintura, aquelas cenas particularmente expressivas, até mesmo inusitadas que tem em sua escola produções como a do francês Jean Baptiste Debret (1768-1848) e o seu álbum de litografias Viagem pitoresca e histórica pelo Brasil, publicado em 1834 na França e posteriormente em 1840 no Brasil. Compõem  a ideia de que regiões então inóspitas da colônia ou do novo reino precisavam ser documentadas.

Já as imagens de Gisele Martins se encontram no sentido mais original do termo, do que é admirável, do que é digno de ser registrado, quando sua proposta não elabora uma interferência “artística” ao lugar mais distante e pouco conhecido e sim uma aproximação mais humana  dessa realidade raramente produzida com êxito. Está inserida no pensamento que começa a ganhar força, de que fotografia nem sempre é o que se pensa como arte e que ela tem suas funções intrínsecas e autônomas. A dicotomia artista versus fotógrafo começa a arrefecer em favor deste último quando o posicionamento se encontra na consolidação da imagem fotográfica primordial como tal.

No Brasil, a literatura e iconografia vernacular foram produzidas desde a chegada dos portugueses no século XVI até o século XIX, com descrições e registros pictóricos que relatavam as novas paisagens e tipos humanos nunca vistos pelos europeus. Com a suposta “missão francesa” que desembarca 8 anos depois da vinda do rei João VI, em 1816, temos o destaque de Debret e o seu contemporâneo Nicolas-Antoine Taunay (1755-1830) entre outros que deixaram um vasto registro humano e ambiental de um singular país que não existe mais.

Na contemporaneidade encontramos estes registros nas obras do paraense Luiz Braga em seu livro Luiz Braga, (Cobogó, 2014) [review no blo do Juan Esteves] ou na obra do paulista Pedro Martinelli com seus clássicos Amazônia o povo das águas (Terra Virgem, 2000) e Gente X Mato (Ed.Jaraqui, 2008) e o inusitado Futebol na Amazônia, Imagem e Alarido (DBA, 2012) do consagrado documentarista paulista Maurício de Paiva.

Em À Margem, Gisele Martins aprofunda a ideia da documentação histórica, que ainda certamente se faz necessária,  para um registro mais complexo e íntimo. Parte pela interação praticada pela autora na convivência das comunidades onde visitou- e ao mesmo tempo se abrigou - e porque não se trata da leitura primária como aquelas feitas por rápidos workshops. É um trabalho que revela a densidade da imersão do autor  com seu assunto e não a superficialidade da captura do exótico ou do supostamente incomum.

Breves, é um município ao lado sudoeste da Ilha de Marajó no norte brasileiro, mais especificamente no Pará. O nome vem da sesmaria dada aos irmãos portugueses Manuel Fernandes Breves e  Angelo Fernandes Breves, localizada próximo do rio Parauhaú. Melgaço é uma cidade a 290 km de Belém, cerca de mais de 8 horas de lancha desta capital ou a 16 horas de navio partindo também desta. Ao lado das ilhas com praias de água doce banhadas pelos rios Amazonas, Tajapuru, Laguna e Anapu.

Nestas pequenas encostas onde o homem se ressente e ao mesmo tempo se satisfaz pela falta da comunicação do mundo, Gisele Martins se debruçou em meio as sistemáticas monções ou sentada na cozinha amiga dos nativos que a acolheram como família. Também foi recebida entre os pescadores artesanais e pequenos criadores  que formam o povoado de Jenipapo, próximo do lado Arari, na Ilha de Marajó.

O escritor pernambucano Diógenes Moura, que assina o texto do livro e a curadoria da mostra homônima na antiga galeria paulistana FASS em 2015, descreve a autora como uma personagem do alemão Bertold Brecht (1898-1956) “anoitecendo entre os  mitos ribeirinhos”. Embora o consagrado dramaturgo esteja imerso no que chamou de teatro épico, Gisele Martins visivelmente desloca este eixo para fora do teatral em contraponto a representação staged. É justamente nesta informalidade que reside o melhor de À Margem. São personagens que não representam e a chuva constante não é retórica e sim realidade.

Palafitas emolduradas pelas palmeiras, personagens que habitam seus interiores distantes de uma visualidade pasteurizada, antagonizam com a estática arte pré-moldada universalizada aos moldes ocidentais. As fotografias reafirmam uma identidade nacional, dando relevância a um vernacular contemporâneo estabelecido pela captura precisa.

Em certos momentos ela se aproxima das litografias debretianas é verdade, quando enxergamos o nativo empunhando o remo com altivez em sua tosca balsa nos igarapés. Seu mundo retornando ao século XIX, não fosse logo adiante a visão das palmeiras a partir de uma janela estruturada acima de utensílios modernos corroborados pela precisão monocromática do papel Garda Kiara exclusivo da Ipsis  e seus pretos profundos, mas visíveis. Contudo o que vemos é ainda imagem fotográfica como tal, realçada por um design simples e preciso de Claudio Filus, paranaense radicado em São Paulo.

Imagens © Gisele Martins. Texto © Juan Esteves.

Galeria ARTE691 recebe no s´bado (16/2) o lançamento do livro "À MARGEM" de Gisele Martins, das 12h às 16h. O local está localizado na Rua Dr Miranda de Azevedo, 691, Vila Anglo Brasileira - perto da av Pompeia, com estacionamento próximo na Rua Dr Augusto de Miranda, 738, Pompeia Park.

Sobre Juan Esteves
Nascido em Santos, SP, é fotógrafo e jornalista há 30 anos. Escreveu para o caderno Ilustrada da Folha de S.Paulo, onde foi fotojornalista e editor de fotografia. Foi colunista da revista Iris Foto e do portal Fotosite, onde também foi editor, além de colaborar com diversas revistas como a SeLecT, Santa Art Magazine e Fotografe Melhor. Suas imagens já foram publicadas pelas editoras Penguin ( Inglaterra), Rizzoli ( Itállia), Autrement ( França) Editorial Crítica ( Espanha), Rive Gauche (China) e Yale University (EUA) entre outras.

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