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Variações do Corpo Selvagem: Eduardo Viveiros de Castro, Fotógrafo

Artistas: Eduardo Viveiros de Castro

Curadoria: Eduardo Sterzi e Veronica Stigger

De 29/8 a 17/01

SESC Ipiranga Ver mapa

Endereço: Rua Bom Pastor, 822 - Ipiranga

Telefone: (11) 3340-2000

O Sesc Ipiranga exibe "Variações do Corpo Selvagem: Eduardo Viveiros de Castro, Fotógrafo", com curadoria de Eduardo Sterzi e Veronica Stigger. Ao reunir cerca de 250 registros fotográficos feitos pelo antropólogo, a mostra apresenta a produção de Eduardo Viveiros de Castro em dois momentos de sua trajetória: o primeiro traz stills de filmes e fotografias de artistas com quem trabalhou, na década de 1970, como Ivan Cardoso, Hélio Oiticica e Waly Salomão; e o segundo momento revela imagens dos índios Araweté, Yanomami, Yawalapiti e Kulina, feitas entre meados da década de 1970 e 1990. Além da exposição, ao longo dos próximos 3 meses, será oferecida uma ampla programação paralela, incluindo apresentações artísticas de dança, teatro, música, cinema, entre outras, e a realização de um seminário internacional, do qual participarão antropólogos e pesquisadores de várias áreas.

Antes de se dedicar à Antropologia, Eduardo Viveiros de Castro desenvolveu trabalhos como fotógrafo, faceta sua pouco conhecida. Para o diretor regional do Sesc São Paulo, Danilo Santos de Miranda, “Os registros presentes nesta exposição trazem os passos anteriores do antropólogo - uma rica produção imagética que, de certa forma, antecipa suas pesquisas e temas futuros”. Em "Variações do Corpo Selvagem: Eduardo Viveiros de Castro, Fotógrafo", o objetivo não é apresentar as imagens separadas em dois momentos diferentes – de um lado, o de intercâmbio com outros artistas; de outro, aquele relacionado com sua atividade etnológica -, mas sim mesclar esses dois universos, aproximando-os por um denominador comum entre as duas linhas de trabalhos: a corporalidade. Este elemento carrega, inclusive, a origem da reflexão antropológica do autor e que marca todo seu percurso intelectual, resultando em sua teoria do Perspectivismo Ameríndio, cuja notável influência é constatada em outros campos do conhecimento, como estética, teoria literária, filosofia política, filosofia do direito e, também, artes.

O fio condutor da exposição se encontra em trechos extraídos de textos e entrevistas de Eduardo Viveiros de Castro, os quais fornecem certa legibilidade a sua obra fotográfica, como extensão figurativa de suas pesquisas etnológicas e de suas reflexões teóricas. Logo na parede de entrada, o público encontra uma citação do autor que define o Perspectivismo, ao externar seu conceito de corpo: “(...) um conjunto de maneiras ou modos de ser que constituem um habitus. (...) é o corpo como feixe de afecções e capacidades, e que é a origem das perspectivas. Longe do essencialismo espiritual do relativismo, o perspectivismo é um maneirismo corporal.”. A partir de então, o espaço expositivo é dividido em quatro núcleos temáticos, fluidos, inter-relacionados uns com os outros, estabelecendo diálogos e, sobretudo, questionamentos dialéticos entre si.

O primeiro núcleo tem como mote a observação do antropólogo sobre a fabricação do corpo como um ato social entre os índios do Alto Xingu. Nessas fotografias, vemos a construção social do corpo em vários momentos: no ato de furar a orelha do recém-nascido, na escarificação da pele, na pintura da pele e em outros arranjos corporais. Na nucleação seguinte, a questão se desdobra no corpo como roupa e seu reverso, a roupa como corpo. Citando algumas das imagens apresentadas por este viés, cenas retratadas na preparação e transformação do corpo por meio da pintura entre os Yawalapiti, e os “parangolés” de Hélio Oiticica, vestidos por moradores do Morro da Mangueira.

O terceiro núcleo da mostra exibe registros orientados pela já célebre afirmação de Eduardo Viveiros de Castro: “(...) no Brasil, todo mundo é índio, exceto quem não é. (...) O caipira é um índio, o caiçara é um índio, o caboclo é um índio, o camponês do interior do nordeste é um índio.”. Aqui, a ênfase são as relações pessoais, com destaques para uma série de “madonas” (mães, e também pais, com seus filhos pequenos no colo) e para a fotografia que mostra dois Kulina fingindo escrever, numa espécie de diálogo imagético com o capítulo “Lição de Escrita”, dos Tristes Trópicos de Lévi-Strauss.

Por fim, o quarto espaço sugere o fim do mundo como tema principal e, em particular, o índio como especialista em sobrevivência. No recente livro Há Mundo Por Vir? Ensaio Sobre os Medos e os Fins, Eduardo Viveiros de Castro e Deborah Danowski observam: “(...) Verdadeiros especialistas em fins do mundo, os Maya (...) tem muito que nos ensinar, agora que estamos no início de um processo de transformação do planeta em algo parecido com a América no século XVI: um mundo invadido, arrasado e dizimado por bárbaros estrangeiros.”. Sob a perspectiva de que a indianidade não diz respeito à sobrevivência do passado, mas a um projeto de futuro, fotografias de crianças indígenas são destacadas, sendo, talvez, a mais exemplar delas a de um grupo de meninos índios defronte ao rio, num fim de tarde.

Não se limitando aos espaços expositivos desta unidade do Sesc, a mostra "Variações do Corpo Selvagem: Eduardo Viveiros de Castro, Fotógrafo" se estende ao Parque da Independência e às ruas ao entorno, além de espaços não convencionais, como comércios do bairro (bares, restaurantes, barbearia e o Mercado Municipal do Ipiranga). Com esta ação, o Sesc Ipiranga apresenta ao público uma produção artística relevante e pouco conhecida, visando incentivar diálogos, reflexões e questionamentos de cunho antropológico por meio da arte.

Eduardo Viveiros de Castro, Menina trumai no Posto Leonardo, Parque Indígena do Xingu, 1975 (fotografia) / Divulgação

Eduardo Viveiros de Castro, Uma das múmias de O Segredo da Múmia (Ivan Cardoso), 1981 (fotografia) / Divulgação

Eduardo Viveiros de Castro, Os Araweté assistindo ao filme de Murilo Santos sobre eles mesmos. Aldeia do Médio Ipixuna, Xingu, 1992 (fotografia) / Divulgação

Eduardo Viveiros de Castro, Kãnĩatã-no em 1982, Aldeia do Médio Ipixuna, Xingu (fotografia) / Divulgação

serviço
Exposição: "Variações do Corpo Selvagem: Eduardo Viveiros de Castro, Fotógrafo", com curadoria de Eduardo Sterzi e Veronica Stigger.
Datas e horários: De 30 de agosto a 29 de novembro de 2015. De terça a sexta-feira, das 12h às 21h; sábados, das 10h às 21h30; domingos e feriados, das 10h às 18h.
Local: Sesc Ipiranga | Rua Bom Pastor, 822 – Ipiranga.
Entrada franca.