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Retrospectiva Carlos Moreira - Wrong so Well

Artistas: Carlos Moreira

Curadoria: Fabio Furtado, Regina Martins e Rodrigo Villela

De 10/8 a 21/10

Espaço Cultural Porto Seguro Ver mapa

Endereço: Alameda Barão de Piracicaba, 610 - Campos Elíseos

Telefone: (11) 3226-7361

Espaço Cultural Porto Seguro exibe, entre 10 de agosto e 21 de outubro de 2019, a extensa obra de um dos mais produtivos fotógrafos brasileiros de todos os tempos, Carlos Moreira. Em "Retrospectiva Carlos Moreira - Wrong so Well", mostra com curadoria de Fabio FurtadoRegina Martins e Rodrigo Villela, o público poderá se aproximar do trabalho de grande amplitude e plasticidade do artista, comprometido com uma constante investigação da linguagem, tendo como objeto principal a relação das pessoas com as cidades - o que lhe permitiu construir sua própria história fotográfica. A entrada é livre e gratuita.

Carlos Moreira, Theatro Municipal de SP, 1974.

Organizada em três seções, a exposição reúne cerca de 400 obras, das quais 250 serão exibidas pela primeira vez ao público, apresentando diversos aspectos e momentos da sua produção, desde o período clássico, pelo qual Carlos é mais conhecido, passando pelas fases e experimentações subsequentes até seus trabalhos atuais. O título da exposição vem da anotação feita pelo fotógrafo no verso de uma fotografia digital impressa em casa: “I like when you do it right. But I love really more when you do it wrong so well”.

A mostra inicia com lâminas do seu primeiro livro, de 1977, e percorre algumas de suas fotos de viagem, muitas ainda inéditas. Este livro é emblemático, de relevante importância histórica, evidenciando tanto a referência à tradição europeia como as especificidades do contexto sul-americano em que se insere. É um importante exemplo do que posteriormente ficaria conhecido como a sua "fase clássica", plena de uma reconhecida geometria que é tão mais rigorosa quanto maior o efeito de liberdade que produz. Uma fase reconhecida pelos cinzas perfeitos, enquadramentos impecáveis, composições rigorosas, de rigor plástico e relação com a luz inspirados em Cartier-Bresson, que construiu as bases para ele logo depois criar algo muito próprio. Uma foto de 1979, feita à noite, em seu apartamento, enquadrando o reflexo do lustre refletido na janela, marca o fim desta fase. Foi ali que Carlos declara ter percebido a necessidade de abandonar a “pureza" da abordagem bressoniana, tanto na relação com a realidade que encontrava quanto com a subjetividade e a imaginação que tal realidade constituía.

Carlos Moreira, Praça Ramos de Azevedo, SP, anos 1970-80.

A segunda seção é um preâmbulo do imenso universo da fotografia colorida produzida por Carlos Moreira, cujo acervo, de cerca de 150 mil negativos, foi inventariado especialmente para esta exposição, o que permitiu aos curadores selecionar cerca de uma centena de fotografias em cores para serem, agora, reveladas ao público pela primeira vez. A partir do final da década de 80, por ter manifestado alergia aos químicos do laboratório (Carlos costumava revelar e ampliar suas próprias fotos), começa a utilizar extensivamente os filmes coloridos, revelados em minilabs. O mergulho na cor passa por um painel de ampliações de época, feitas em 1994. Além de ampliações originais e outras produzidas especialmente para a mostra, esta seção conta com projeções de sequências fotográficas e séries com sua fotografia de interiores, muitas vezes utilizada por ele para treinar composições dentro de casa, antes de experimentá-las na rua.

Uma seleção de obras também nunca expostas compõe a terceira e última seção, reunindo o trabalho feito em Buenos Aires, um dos mais recentes, e várias exemplos de sua produção atual. A partir dos anos 2000, Carlos Moreira passou a experimentar também a fotografia digital, desde as primeiras câmeras ao celular. Até então, havia fotografado principalmente com câmeras Leica M, famosas por serem pequenas e, portanto, discretas, confiáveis e ágeis, atributos também aplicados hoje à tecnologia digital. Menos conhecido do público, acostumado ao seu período clássico, o trabalho digital de Carlos Moreira é exemplo de uma composição cuja liberdade chega a ser radical. A fotografia em 50mm cedeu lugar à produção em 28mm e 35mm, implicando em um maior esforço na composição e novas relações entre o espectador e o ambiente fotografado.

Carlos Moreira, Santos, 5 de fevereiro de 1990.

"Se isolarmos no trabalho de Carlos A. Moreira uma essência dominante, obteremos silêncio. Não que nada seja dito. Ao contrário. Tudo é dito numa linguagem essencialmente plástica e numa plástica essencialmente nítida e equilibrada, diria até meridiana. É a realidade em sua dimensão silenciosa. É o silêncio no homem, no seu bom e no seu mau, no seu trágico (principalmente) e na sua silenciosa satisfação, e nas coisas que são o seu meio. E o que é o silêncio? É um matiz da energia, aquele ponto sutil em que o existir deixa de ser qualitativo, na medida em que deixa de ser julgamento, atingindo assim uma realidade e um realismo feitos do que as coisas são, e não mais do que deveriam ser. E atingir um matiz da energia é o que talvez seja, em última análise, a função principal do poeta”, tão bem analisou José Antonio Van Acker, artista plástico, espécie de mentor e uma das influências com que Carlos dialogou, em texto de 1976. Van Acker considerava o barroco não simplesmente como um período histórico, mas, também, como como uma forma de ver o mundo e transferir isto para uma produção artística, visão absorvida pelo Carlos e com influências em seu trabalho até hoje.

Carlos Moreira, Guarujá, anos 1990.

A fotografia de rua e sua relação com o real
Paulistano, nascido em 1936, Carlos Moreira se dedica aos registros de rua desde a década de 60, fotografando cidades do Brasil e do exterior, como São Paulo, Santos, Guarujá, Rio de Janeiro, Salvador, Buenos Aires, Tóquio, Paris e Havana.

No final da década de 1960, Carlos passa integrar o Grupo Novo Ângulo, formado por jovens fotógrafos (como Alberto Martinez, Daniel Riva, José Reis Filho, Paulo Santiago e Marilyn Tinney), inspirados na tradição de rua de Henri Cartier-Bresson e da Agência Magnum. Em contraste à abordagem mais pensada e por vezes beirando o virtuosismo do Foto-Cineclube Bandeirantes, um dos maiores e mais prestigiados da época, o Novo Ângulo buscava contato mais direto com a rua e suas personagens, optando por não assinar as fotos em suas exposições, algum incomum à época. "Uma fotografia, como um mundo, nunca deve terminar; depende dos olhos daqueles que vêem. Toda porta é mais do que porta (dessas que se abrem e que se fecham e servem para entrar e sair); além e atrás das portas há universos, e as portas nos anunciam ou renunciam. Em abstrações há mais que riscos e padrões interessantes: além e atrás do abstrato há formas e acontecimentos – entregando-se mais, vêem-se de repente o gesto e a vivência dum ser humano ou duma árvore… Ou mesmo do vento. Num padrão qualquer, numa superfície comum, há escritos”, escreveu Marilyn Tinney, na apresentação do Novo Ângulo, em 1968.

Carlos Moreira, São Paulo, anos 1972-73.

Paralelamente à intensa convivência com o centro de São Paulo, especialmente lugares como a Praça Ramos, também as constantes temporadas nas cidades litorâneas brasileiras de Santos e Guarujá são prova de uma extraordinária mescla de domínio formal e liberdade expressiva. Parte desta produção traz um erotismo pouco abordado como fator constitutivo da relação documental de Carlos com a rua, ponto culminante da chamada fase clássica e da transição para novos caminhos. Uma relação sensual com a luz e com as cidades, elemento-chave para entender a maneira como Carlos fotografa e se relaciona com o ambiente urbano.

Ao longo dos anos, seu trabalho incorporou o diálogo com diferentes referências da fotografia de rua, tanto da tradição europeia como da norte-americana, de Robert Frank a Lee Friedlander e os Novos Humanistas. Nos anos 70 e 80, foi professor de fotografia na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, influenciando muitas gerações de fotógrafos e cineastas, tendo fundado, em 1990, ao lado da também fotógrafa Regina Martins (responsável por algumas de suas ampliações mais famosas), o M2 Compound, estúdio e espaço de pesquisa onde dá aulas até hoje. Aos 82 anos, Carlos Moreira declara estar definindo uma fotografia cada vez mais própria, capaz de conter as diversas referências com as quais dialogou e que formam uma das possíveis histórias da fotografia de rua.

Carlos Moreira, Guarujá, 9 de Julho de 1991.

Serviço
"Retrospectiva Carlos Moreira - Wrong so Well", com curadoria de Fabio Furtado, Regina Martins e Rodrigo Villela.
Datas e horários: Abertura dia 10 de agosto. Em cartaz até 21 de outubro de 2019. De terça a sábado, das 10h às 19h; domingos e feriados, das 10h às 17h.
Local: Espaço Cultural Porto Seguro | Alameda Barão de Piracicaba, 610 - Campos Elíseos, São Paulo.
Entrada livre e gratuita.
Estacionamento: Alameda Barão de Piracicaba, 634 (sede Porto Seguro). De segunda a sexta-feira, gratuito pelo período de até 1h30 (1ª, 2ª e 3ª hora adicionais R$ 10,00 a hora. A partir da 4ª hora adicional, R$ 5,00 a hora). A partir das 17h30 e aos sábados, domingos e feriados - R$ 20,00 (preço único).
Serviço de vans: O Complexo Cultural Porto Seguro oferece vans gratuitas da Estação Luz até o Espaço Cultural Porto Seguro. Na Estação da Luz, o ponto de encontro das vans é na saída da Rua José Paulino / Praça da Luz / Pinacoteca, em frente ao Parque Jardim da Luz. Há instrutores no local para orientar o embarque. Para mais informações, entre em contato pelo telefone (11) 3226-7361. Horário de funcionamento do serviço de vans: Terça a sábado das 9h à 0h. Domingo das 9h às 22h.