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Raimundo Cela

Artistas: Raimundo Cela

Curadoria: Denise Mattar

De 11/6 a 18/9

MAB - Museu de Arte Brasileira | FAAP Ver mapa

Endereço: Rua Alagoas, 903 - Prédio 1 - Higienópolis

Telefone: (11) 3662-7198

A Fundação Armando Alvares Penteado recebe, a partir de 12 de junho, a exposição de Raimundo Cela (1890-1954), principal artista cearense de sua geração. Reunindo 120 obras, a retrospectiva apresentará o percurso do artista desde suas obras acadêmicas até os últimos trabalhos, plenos de ritmo e emoção. Com curadoria de Denise Mattar, que tem como proposta resgatar artistas de qualidade que ficaram à margem da história oficial da arte brasileira, a exposição "Raimundo Cela" vai apresentar aos paulistas e cariocas a obra de um realizador muito respeitado entre os estudiosos, mas pouco conhecido do público em geral. A mostra permanece em cartaz até o dia 18 de setembro de 2016.

Raimundo Cela, Vendedor de redes, 1944 - óleo sobre madeira, 90 x 74 cm (Divulgação)

A exposição reúne obras das seguintes instituições: Museu de Arte da Universidade Federal, do Ceará do Instituto Dragão do Mar, Palácio da Abolição, Palácio Iracema em Fortaleza, e do Museu Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro, além de 14 coleções particulares de Fortaleza e São Paulo. Em contribuição à preservação da memória do artista e de sua obra, o Projeto "Raimundo Cela: um mestre brasileiro" realizará o restauro de quatro obras do artista, sendo três obras pertencentes ao acervo do Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará – MAUC: Rendeira (1931, óleo sobre madeira, 32 x 40,5 cm); Cabeça de vaqueiro (1931, óleo sobre madeira, 38 x 46 cm) e Cabeça de Jangadeiro (1933, óleo sobre madeira, 38 x 46 cm).

Da coleção do Governo do Estado do Ceará – Instituto Dragão do Mar será restaurada a obra Catequese (óleo sobre tela 190 x 200 cm). Essas obras serão apresentadas na itinerância da mostra para o Museu Nacional de Belas Artes em outubro deste ano.

A exposição
Maior retrospectiva já realizada do pintor cearense, a mostra abarca sua trajetória, a partir dos momentos-chave, que representam o início de um novo ciclo em sua obra.

A exposição abre com desenhos introdutórios e preparatórios e óleos de seus primeiros trabalhos, marcados pela influência do academicismo, ou seja, obras determinadas pelo perfeito domínio da técnica clássica, na composição de telas figurativas, evocações à Antiguidade Clássica e à paisagem brasileira. Nesse setor, destacam-se, entre outras, obras como Último diálogo de Sócrates (1917), premiada no Salão Nacional de Belas Artes com uma viagem a Paris.

Por causa da Primeira Guerra, a viagem acontece apenas em 1920, justamente o princípio dos anos loucos da capital francesa, onde Cela dedica-se aos estudos da gravura em metal, dando uma nova perspectiva à sua obra, não apenas na técnica, como também na temática. Ao longo dos anos em que permanece em Paris, como o público verá na exposição, seus desenhos, óleos e gravuras retratam cenas da paisagem francesa, como na tela Paisagem de Saint-Agrève (1921), e da realidade parisiense e de seus tipos, em estudos de nus e nos desenhos Ferreiro e Funileiro (1921).

Um dos grandes destaques da exposição, e da obra de Cela, o painel Abolição (1938), estará reproduzido na mostra em seu tamanho original. Primeiro estado brasileiro a abolir a escravatura, em 25 de Março de 1884, o Ceará, terra-natal de Cela, encomenda a ele, em 1938, um painel que simbolize o momento histórico tão marcante na história do Ceará e do Brasil.

Na individual, o público poderá ter acesso a uma visão única do Ceará. Um Ceará da gente do mar, com muita luz, vento, areia e água salgada. Certamente está em seus quadros a melhor tradução dessa paisagem nordestina, como na série Pinturas Brancas, de marinas e paisagens. Cela também foi um caçador de almas e dos tipos cearenses, com destaque para as figuras populares, como pescadores, vaqueiros, rendeiras e os jangadeiros, estes representados em uma série de obras criadas entre 1940 e 1946 que, na mostra, estarão dispostas de modo narrativo, mostrando a sequência de ações que levam a jangada ao mar.

Raimundo Cela, Abolição dos escravos, 1938 - óleo sobre tela, 225 x 392 cm (Divulgação)

Vida e obra
Raimundo Cela nasceu em 1890, em Sobral, no interior do Ceará, mas cresceu em uma cidade litorânea próxima: Camocim. O artista foi criado em um meio familiar culto. Cela foi para o Rio de Janeiro em 1910 estudar engenharia, desejo de seu pai, e pintura, por ambição própria. Formou-se sob orientação dos maiores mestres do começo do século, tendo contato especial com Eliseu Visconti.

A pintura de Cela inicia-se totalmente acadêmica, tendo ele recebido, em 1917, o prêmio de viagem ao exterior do Salão Nacional de Belas Artes, pela obra clássica Último Diálogo de Sócrates.

Por causa da Guerra só viajou em 1920. Permaneceu na França por dois anos, quando dedicou-se ao aprendizado da gravura em metal com Frane Brangwyn, pintor, gravador e litógrafo inglês. Seu trabalho nessa técnica é de excepcional qualidade. Suas gravuras, segundo Adir Botelho, não são apenas registros gráficos, históricos, são obras universais no sentido e na expressão. Foi o pioneiro do ensino da gravura em metal na Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, lecionando durante nove anos.

De volta ao Brasil, foi viver em Camocim, onde trabalhou durante dez anos como engenheiro de uma pequena usina elétrica. Em 1938, a pintura de um painel para o governo do Estado representando a libertação dos escravos do Ceará o trouxe de volta à vida artística. Pouco depois, em 1940, estabeleceu-se em Fortaleza. O artista francês Jean Pierre Chabloz o conheceu nessa fase e encantou-se com sua obra.

Raimundo Cela, sendo um moderno, nunca foi um modernista. Ele apareceu justamente naquele momento de nossa história cultural em que as artes iam ser atingidas pelo radicalismo de 1922. Criou-se, então, o mito, que hoje vem sendo revisto pelos estudos sobre o pré-modernismo, de que aconteceu um hiato entre os mestres do século XIX e a Semana de Arte Moderna. Neste período nada teria sido produzido de interessante e criativo. Os que surgiram naquela fase foram mantidos numa espécie de limbo cultural. Mas o valor da arte de Raimundo Cela deve-se ao fato de ter sido concebida à margem das escolas, de não ter sido contaminada pelos modismos passageiros.

Nas palavras de Cláudio Valério Teixeira (artista plástico, restaurador e crítico de arte): “Na obra deCela nada é inocência, tudo é fruto de planejamento, economia e técnica. Mas tudo é também movimento, força, agilidade e graça. Sua arte não procura simplesmente imitar as coisas representadas, é de uma beleza solene, meio melancólica, mas luminosa”.

O pintor retornou ao Rio de Janeiro em 1945. Tornou-se professor de gravura em metal da Escola Nacional de Belas Artes, cargo que ocuparia até a sua morte, em 1954. Nesta última fase da carreira, Cela foi duas vezes premiado com a medalha de ouro do Salão Nacional de Belas Artes.

Raimundo Cela, A Virada, 1943 - óleo sobre madeira, 99 x 132 cm (Divulgação)

serviço
Exposição: "Raimundo Cela", com curadoria de Denise Mattar.
Datas e horários: Abertura dia 11 de junho, das 17h às 20h. Em cartaz entre os dias 12 de junho e 18 de setembro de 2016. De segunda, quarta, quinta e sexta-feira, das 10h às 19h (última entrada às 18h). Sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h (última entrada às 17h).
Local: MAB - Museu de Arte Brasileira da FAAP | Rua Alagoas, 903 - Higienópolis.
Entrada gratuita.