AGENDA DAS ARTES

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Matriz do Tempo Real

Artistas: Vários

Curadoria: Jacopo Crivelli Visconti

De 13/1 a 18/3

MAC - Museu de Arte Contemporânea Ver mapa

Endereço: Avenida Pedro Álvares Cabral, 1301 - Ibirapuera

Telefone: (11) 2648-0254

O Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC USP) recebe, a partir do dia 13 de janeiro, a exposição "Matriz do Tempor Real", coletiva com curadoria de Jacopo Crivelli Visconti, concepção de Ricardo Ribenboim e realização da Cia das Licenças. Cerca de 40 obras - que possuem como elemento central o tempo -, de artistas brasileiros e internacionais, foram reunidas para uma reflexão acerca do passar do tempo, seja de um ponto de vista filosófico ou mesmo no sentido processual, dos dias levados para a realização do trabalho artístico. Em cartaz até 18 de março de 2018, a mostra que contempla vários formatos, tais como vídeo, fotografia e pintura, possui entrada livre e gratuita.

On Kawara, Sept.27, 1984, da série Today, 1984. Acrílica sobre tela, 21 x 26 cm. (Divulgação)

“A exposição contém uma variedade de artistas que, de maneiras bastante distintas, possuem o desejo de capturar o tempo”, afirma Jacopo. Entre estes artistas está um dos grandes representantes da arte conceitual, o japonês On Kawara, conhecido pela série Today (Hoje), que desenvolveu ao longo de 48 anos e que se traduz como uma reflexão sobre a força esmagadora do tempo. Para cada dia que passava, On Kawara produzia uma pintura, em cujo centro escrevia a data da obra. O artista, que costumava viajar muito, manteve o hábito onde quer que estivesse, produzindo até a sua morte, em 2014.

Outra obra conceitual é a que abre a exposição: 4’33”, do compositor americano John Cage. Apresentada pela primeira vez em 1952, a música não possui nenhuma nota e, durante os 4 minutos e 33 segundos, o pianista permanece sem tocar, chamando atenção para os ruídos da plateia, que também seriam considerados parte da música. A obra de Cage é tida como uma das percursoras da arte conceitual, que, no fim da década de 1960, questionou a fetichização do objeto, promovendo ações efêmeras, que não pudessem ser comercializadas pelo mercado.

Irma Blank, Radical Writing, 1993. Óleo sobre tela. (Divulgação)

Esses trabalhos internacionais conversam com a produção brasileira, como a de Artur Barrio e Ivens Machado, presente na coleção do MAC. Ao propor o diálogo entre as obras, a exposição agrega novas leituras ao acervo do museu, que foi protagonista na difusão da arte conceitual no País. “Durante a gestão de Walter Zanini (1963-1978), o MAC teve um papel fundamental, tanto na concepção das obras, oferecendo materiais e equipamentos, quanto no apoio aos artistas, criando um lugar onde esse tipo de produção fosse conhecida e valorizada”, pontua o curador.

Em sua trajetória, Artur Barrio também ficou conhecido por suas obras que questionavam o sistema da arte. Nas famosas Situações, criadas a partir de 1969, o luso-brasileiro intervinha na cidade, utilizando elementos orgânicos como papel higiênicos, sangue e carne putrefata. Em estado de deterioração, os próprios materiais já tratavam da efemeridade, questão também evidente em Relógio Navalha, exibido na mostra. O trabalho traz duas fotos que registram uma ação experimental, realizada em 1973. Na ocasião, Barrio colocou uma lâmina de barbear em frente ao espelho, concebendo uma imagem que se aproximava à de ponteiros de um relógio, apresentando “uma clara alusão à ação potencialmente destrutiva do tempo”, como afirma o curador.

David Lamelas, Here, in this room, two people will never meet, 2012-2014. (Divulgação)

O anseio de registrar a passagem dos dias aparece, por exemplo, na série de vídeos Time as Activity (Tempo como atividade), do argentino David Lamelas. Iniciado em 1969 e levado adiante até hoje, o trabalho é composto por registros de cenas banais em diferentes cidades ao redor do mundo. Nos vídeos, o artista sempre informa a duração de cada uma das cenas, assim como o dia e a hora em que foram capturadas. A paisagem é o que menos importa, sendo a filmagem do próprio tempo o teor principal do trabalho.

A performance também é destacada, representada na mostra pela artista Ana Amorim. Ao longo da exposição, a paulistana apresentará a performance Contar Segundos, concebida em 1984. Na ação, a artista conta, literalmente, um por um, os segundos de uma hora. Para cada segundo, Ana traça uma linha em um caderno que se torna, assim, o registro da performance.

A exibição de registros, por sinal, é um aspecto importante de alguns trabalhos que, por serem efêmeros, só podem ser conhecidos pelo público através dos documentos. É o caso do inglês Hamish Fulton, que, depois de realizar uma caminhada de 47 dias e 1644,75 quilômetros, decidiu que toda sua obra seria baseada no ato de andar.  Em museus e galerias, ele exibe textos e fotos que retratam suas experiências, como em No Talking for Seven Days [Sem falar por sete dias], registro de uma viagem que realizou pela Escócia. Porém, o trabalho em si continua sendo o ato de andar, como o inglês já ironizou em mais de uma ocasião: “Uma obra de arte pode ser adquirida, mas uma caminhada não pode ser vendida”.

Daniel de Paula, Mecanismo primordial do derivar, 2017. (Divulgação)

Arte e vida
De caráter mais intimista, outros trabalhos se aproximam das narrativas pessoais, que unem arte e vida. É o caso de O Penélope, o recruta, o aranha, de Leonilson, produzido em 1991, quando o artista já havia sido diagnosticado como portador de HIV. A obra é uma referência à Odisseia, mais especificamente à personagem Penélope, esposa de Ulisses, que esperou o marido por vinte anos, tecendo de dia e desfazendo de noite a sua mortalha.

Para Leonilson, o ato de bordar adquiriu, no período final de sua vida, um caráter quase místico: “Fico fazendo esses trabalhos como orações, da mesma maneira como os hindus fazem bordados. É como uma religião que fornece símbolos. Acreditando neles, você pode chegar a algum lugar”, afirmou o artista.

Leonilson, O Penélope, o recruta, o aranha, 1991. Bordado com linha e lantejoulas sobre lona. (Divulgação)

O italiano Franco Vaccari, por sua vez, investiga a construção da memória. Em Provvista di ricordi per il tempo dell’Alzheimer (Reserva de lembranças para a época do Alzheimer), ele apresenta uma montagem com fotografias e vídeos caseiros de famílias italianas anônimas. Ainda que desconhecidas pelo público, juntas, as imagens remetem a uma história coletiva, que resiste ao tempo.

As reminiscências do passado também são centrais nas fotos de Mauro Restiffe. O paulista reúne imagens que realizou na Rússia, em dois períodos distintos: no começo dos anos 1990 e entre 2015 e 2016. Com uma distância de duas décadas, as fotos mostram tanto a transformação dos lugares quanto das pessoas que os habitam ou passaram por eles, incluindo o próprio fotógrafo.

Mauro Restiffe, Time Structures, 1996/2015. (Divulgação)

Serviço
Exposição: "Matriz do Tempo Real", coletiva com curadoria de Jacopo Crivelli Visconti.
Datas e horários: Abertura dia 13 de janeiro, a partir das 11h. Em cartaz até 18 de março de 2018. De terça-feira, das 10h às 21h; quarta a domingo, das 10h às 18h.
Local: Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo - MAC USP | Av. Pedro Álvares Cabral, 1301 – Ibirapuera, São Paulo.
Entrada livre e gratuita.