AGENDA DAS ARTES

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Levantes

Artistas: Vários

Curadoria: Georges Didi-Huberman

De 18/10 a 28/1

SESC Pinheiros Ver mapa

Endereço: Rua Paes Leme, 195 - Pinheiros

Telefone: (11) 3095-9400

Com ênfase em referências relacionadas à insurgência como expressão artística e social, a exposição “Levantes”, com abertura em 18 de outubro, às 20h, no Sesc Pinheiros, convida o público a uma reflexão sobre as manifestações populares por meio da arte. A mostra conta com curadoria de Georges Didi-Huberman, filósofo e historiador da arte que vem pela primeira vez a São Paulo e possui inúmeros estudos e artigos científicos publicados que integram o currículo das principais escolas de Belas Artes de todo o mundo pelo menos há duas décadas. A exposição permanece em cartaz até 28 de janeiro de 2018, com entrada livre e gratuita.

Eduardo GIL, Niños desaparecidos. Secunda Marcha de la Resistancia. December 9-10 1982, modern gelatin silver print. Eduardo Gil collection © Eduardo Gil

Organizada e idealizada pelo Jeu de Paume (histórica instituição que tradicionalmente acolhe exposições de arte e fotografia e situada no Jardim das Tulherias, em Paris) e realizada no Brasil pelo Sesc em São Paulo, em parceria com o Serviço de Cooperação e de Ação Cultural da Embaixada da França no Brasil (SCAC), "Levantes” é uma exposição transdisciplinar sob a perspectiva das emoções coletivas, na qual estão presentes as diferentes formas de representação dos levantes, atos populares, políticos, engajados nas transformações sociais, nas revoltas e/ou revoluções. Os anseios, as forças da natureza, como movimento das dunas levadas pelo vento, os impulsos e gestos corpóreos, os testemunhos tratando daquilo que mobiliza a sublevar e a transformar são apresentados por meio de instalações, pinturas, fotografias, documentos, vídeos e filmes contemporâneos.

A partir das reproduções de fotografias de Marcel Duchamp, Man Ray, Cartier Bresson e Gilles Caron, dos textos de Marcel Foucault, Baudelaire e André Breton, das instalações de Lorna Simpson, dos vídeos de Allan Sekula, a poesia dos Manifestos Pau-Brasil e Antropofágico de Oswald de Andrade e do movimento dos parangolés de Hélio Oiticica, dentre outras obras, a exposição demonstra as múltiplas maneiras de transformar quietude em movimento, submissão em revolta, renúncia em alegria expansiva.

Agustí CENTELLES, Children playing, Montjuic, Barcelona, 1936. Modern gelatin silver print. © Ministerio de Educación, Cultura y Deporte, España. Centro Documental de la Memoria Histórica, Salamanque, Espagne.

Itinerante, "Levantes" foi criada pelo Jeu de Paume, com a condição de que cada cidade por onde passe tenha conteúdos locais adicionados. Nesse sentido, o curador pediu que fosse incluída uma série de conteúdos que enfatizassem a escravidão, a negritude e a pobreza no Brasil, temas que estarão representados pela sensibilidade artística de Sebastião Salgado, Hélio Oiticica e Oswald de Andrade.

Com aproximadamente, 200 obras - várias delas inéditas no Brasil – a mostra conta com peças garimpadas em coleções espalhadas pelo mundo, fugindo de uma abordagem tradicionalmente eurocêntrica ou norte-americana. No conjunto, o acervo reunido exemplifica a visão ampla e panorâmica de Didi-Huberman.

 Chieh-Jen CHEN, The Route, 2006, 35 mm film transferred onto DVD: color and black and white, silent, 16:45 min. © Chieh-Jen Chen, courtesy galerie Lily Robert.

O curador propõe a divisão da mostra em cinco eixos, elementos, gestos, palavras, conflitos e desejos, descritos a seguir:

ELEMENTOS
Levantar-se, como quando se diz “o levantar de uma tempestade”. Revirar a gravidade que nos prende ao chão. São as leis da atmosfera inteira que serão contrariadas.

Superfícies – lençóis, panos, bandeiras – que esvoaçam ao vento. Luzes que explodem como fogos de artifício. Poeira que sai das reentrâncias, se levanta. Tempo que se solta das amarras. Mundo de ponta-cabeça. De Victor Hugo a Eisenstein e além, os levantes serão frequentemente comparados a turbilhões e a grandes ondas que arrebentam, por ser quando os elementos (da história) se desencadeiam.

O levante se faz, de início, com o exercício da imaginação, mesmo em seus “caprichos” ou “disparates”, como dizia Goya.

A imaginação ergue montanhas. E quando nos levantamos diante de um “desastre” real, ou seja, daquilo que nos oprime, dos que querem tornar impossíveis os nossos movimentos, opomos a eles a resistência de forças que são antes de tudo desejos e imaginações, ou seja, forças psíquicas de  desencadeamento e de reaberturas de possibilidades.

GESTOS
Levantar-se é um gesto. Antes mesmo de começar e levar adiante uma “ação” voluntária e compartilhada, o levantar se faz por um simples gesto que, de repente, vem revirar a prostração que até então nos mantinha submissos (por covardia, cinismo ou desespero). Levantar-se é jogar longe o fardo que pesava sobre nossos ombros e entravava o movimento. É quebrar certo presente – mesmo que a marteladas, como queriam Friedrich Nietzsche e Antonin Artaud – e erguer os braços ao futuro que se abre. É um sinal de esperança e de resistência. É um gesto e uma emoção. Os republicanos espanhóis plenamente o assumiram, eles cuja cultura visual tinha sido formada por Goya e Picasso, mas também por todos os fotógrafos que registraram ao vivo os gestos dos prisioneiros libertados, dos combatentes voluntários, das crianças ou da famosa La Pasionaria Dolores Ibárruri. No gesto do levante, cada corpo protesta por meio de todos os seus membros, cada boca se abre e exclama o não da recusa e o sim do desejo.

PALAVRAS
Braços se ergueram, bocas exclamaram. Agora precisamos de palavras, frases para o dizer, o cantar, o pensar, o discutir, o imprimir, o transmitir. Por isso os poetas se situam “antes” da ação propriamente dita, como dizia Rimbaud nos tempos da Comuna. Atrás os românticos, à frente os dadaístas, surrealistas, letristas, situacionistas etc., que sustentaram poéticas insurreições.

“Poética” não quer dizer “longe da história”, muito pelo contrário. Há uma poesia dos folhetos, desde a folha de protesto escrita por Georg Büchner em 1834 até as resistências digitalizadas de hoje, passando por René Char em 1943 e os “cinétracts” (cine-panfletos) de 1968. Há poesias específicas do papel-jornal e das redes sociais. Há uma inteligência particular – atenta à forma – inerente aos livros de resistência ou de levantes. Até que as próprias paredes tomem a palavra e que esta ilustre o espaço público, espaço sensível em sua totalidade.

CONFLITOS
Então tudo se inflama. Tem quem veja nisso apenas o puro caos. No entanto, outros veem surgir formas de um desejo de ser livre, formas de vida em comum durante as greves. Dizer “manifestamos” é constatar – mesmo com espanto, mesmo sem compreender – que algo surgiu, algo decisivo. Mas foi preciso um conflito. É um tema importante para a moderna pintura da história (de Manet a Polke) e para as artes visuais em geral (fotografia, cinema, vídeo, arte digital). Os levantes às vezes produzem apenas a imagem de imagens quebradas: vandalismos, um tipo de carnaval negativo. Mas a arquitetura provisória dos levantes se constrói sobre essas ruínas: coisas paradoxais, moventes, feitas disso e daquilo, como as barricadas. Depois as autoridades reprimem a manifestação, quando já não resta aos manifestantes nada além da força do desejo (a força, não o poder). Por isso, na história, tantas pessoas morreram por terem se levantado.

DESEJOS
Mas a força sobrevive ao poder. Freud dizia que o desejo é indestrutível. Mesmo quem sabe estar condenado – nos campos de concentração, nas prisões – busca meios de transmitir um depoimento, um apelo. Foi o que Joan Miró quis mostrar numa série intitulada L’Espoirducondamné à mort [A esperança do condenado à morte], em homenagem ao estudante anarquista Salvador Puig Antich, executado pelo regime franquista em 1974.

Um levante pode acabar em lágrimas de mães chorando sobre os filhos mortos. Mas essas lágrimas não são de esgotamento: elas ainda podem ser força de sublevação, como nas “marchas de resistência” das mães e avós de Buenos Aires. São nossos próprios filhos em levante: Zero de conduta! E Antígona, afinal, não era quase uma criança? Seja na floresta do Chiapas, na fronteira greco-macedônica, em qualquer parte da China, no Egito, em Gaza ou na selva das redes da internet pensadas como um vox populi, sempre haverá uma criança que pule o muro.

Maria KOURKOUTA, Idomeni, 14 mars 2016. Frontière gréco-macédonienne, (Idomeni, March 14, 2016. Greek–Macedonian border), 2016, HD video loop: color, sound, 36:00 min © Maria Kourkouta. Production: Jeu de Paume, Paris.

Serviço
Exposição: "Levantes", com curadoria de Georges Didi-Huberman.
Datas e horários: Abertura dia 18 deoutubro, às 20h. Em cartaz até 28 de janeiro de 2018. De terça a sexta, das 10h30 às 21h30; sábados, das 10h30 às 21h; domingos e feriados, das 10h30 às 18h30.
Local: Sesc Pinheiros - Espaço Expositivo (2º andar) | Rua Paes Leme, 195 - Pinheiros, São Paulo.
Entrada livre e gratuita.