AGENDA DAS ARTES

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INVENÇÕES DA MULHER MODERNA, PARA ALÉM DE ANITA E TARSILA

Artistas: Varios

Curadoria: Paulo Herkenhoff

De 13/6 a 20/8

Instituto Tomie Ohtake Ver mapa

Endereço: Avenida Brigadeiro Faria Lima, 201 - Pinheiros - São Paulo - SP CEP 01451-001

Telefone: (11) 2245-1900

A mostra inédita, organizada e realizada pelo Instituto Tomie Ohtake, sob a curadoria de Paulo Herkenhoff, coloca em destaque a produção e a trajetória de diversas mulheres que desafiaram convenções e limites de suas épocas, nos séculos XIX e XX no Brasil, seja no campo estético ou social.

A exposição Invenções da Mulher Moderna, Para Além de Anita e Tarsila é resultado de uma extensa pesquisa que o curador Paulo Herkenhoff desenvolve há décadas, alimentada pela contínua reflexão sobre a obra de diversas mulheres artistas brasileiras. Esta mostra, portanto, desdobra o já conhecido comprometimento de Herkenhoff com o registro histórico da produção feminina e com a reflexão teórica sobre suas invenções.

Para a exposição, com cerca de 300 obras, além de fotos e documentos, o curador toma como referência dois pilares do modernismo no Brasil, Anita Malfatti e Tarsila do Amaral, e apresenta novos apontamentos sobre suas obras e histórias. Em torno dessas referências, a maior parte das obras e das narrativas presentes na exposição vai mais longe, e apresenta mulheres que são em sua maioria desconhecidas do grande público.

Entre mostra e catálogo, o curador não pretende organizar um dicionário/glossário de nomes e imagens, muito menos construir uma grande narrativa completa e acabada, mas situar de maneira historiográfica e crítica diversas personagens que complementam e transformam a história da cultura e da arte no país. Assim, ao invés de uma narrativa linear, a mostra elege diversos núcleos, que se distribuem como uma rede ou uma constelação. Núcleos heterogêneos são estabelecidos e dão visibilidade a questões e temas relevantes, que abrangem tanto dados históricos e factuais quanto tentam demonstrar a subjetividade das artistas escolhidas. As invenções, como sugere o título, dizem respeito às criações dessas mulheres e também à construção da imagem da mulher que foi sendo aberta e lapidada ao longo dos séculos XIX e XX. Além de seu pioneirismo, essas personagens têm em comum o enfrentamento de tensões e conflitos de diversas ordens.

“Sob um novo olhar, a mostra reflete como as mulheres desafiaram, ao longo do tempo, os conceitos instituídos para garantir um posicionamento igualitário. São histórias inspiradoras que exibem a importância do conhecimento, do diálogo e da arte na evolução da sociedade até a atualidade. Somos uma empresa que acredita na diversidade, na igualdade e na cultura, por isso, estamos satisfeitos em apoiar essa reflexão”, conta Fátima Lima, diretora de Marketing e Sustentabilidade do Grupo Segurador Banco do Brasil e Mapfre, que patrocinou a mostra por meio da Lei de Incentivo à Cultura e do PROAC São Paulo.

Em Mulheres de Vassouras – trocadilho entre as mulheres e a cidade carioca que foi polo do café do século XIX e de revoltas de escravos – estão: Eufrásia Teixeira Leite (1850 – 1930), intelectual que libertou seus escravos, relacionou-se com Joaquim Nabuco e ficou conhecida por seus atos de filantropia; documentos oriundos do Arquivo Nacional sobre a prisão de Mariana Crioula (? – ?), negra, casada com o quilombola Manoel Congo e ao seu lado participou da maior fuga de escravos ocorrida em 1838; e Abigail de Andrade (1864 – 1890, França) que, segundo o curador, foi uma das primeiras a executar no Brasil as chamadas pinturas de gênero, pautadas nas cenas cotidiana de interiores doméstico. 


Georgina de Albuquerque- Autorretrato, 1904. Óleo sobre tela. Museu Nacional de Belas Artes. Foto: Cesar Barreto.

Para pensar as Mulheres do Século XIX, Herkenhoff se vale da ideia do “muxarabi”. O elemento da arquitetura que lembra uma grade de madeira, de origem árabe, permite entrada da luz, se pode ver de dentro para fora, mas não de fora para dentro. Essa posição representa o lugar protegido e reservado que era designado à mulher e foi, gradualmente, superado conforme mulheres decidiam abandonar tal “mediação” ao pintar e registrar a cidade, encarando e sendo encaradas de volta. No século XIX houve cerca de 50 mulheres conhecidas como pintoras e a exposição reunirá cerca de 15 delas.

Já o núcleo Modernas antes do Modernismo elenca nomes de artistas que marcaram a época e o local em que viveram, modernas por estarem desvinculadas dos princípios da arte acadêmica, porém desvinculadas do modernismo organizado como vanguarda no país no começo do século XX. É o caso da espanhola, que chegou ao Brasil nos anos de 1890, Maria Pardos em Juiz de Fora, Minas Gerais, uma pintora da intimidade e do mundo privado e que ganhou diversos prêmios em salões. Outra artista pertencente a este grupo é Nair de Tefé (1886 – 1981, RJ), a primeira caricaturista mulher de quem se tem notícia em escala mundial.

O segmento dedicado à fotografia evoca a atuação da mulher no século XIX, como a chegada, em 1842, de cinco daguerreotipistas no Rio de Janeiro, dentre eles, uma mulher. A mostra traz a figura que modificou os parâmetros da fotografia no século XIX, Fanny Volks, alemã radicada em Curitiba no ano de 1881. Com interesse voltado ao social, uma de suas pesquisas constava de fotografar o trabalho masculino ao ar livre. Já entre as presenças no início do século XX o curador ressalta Hermínia Nogueira Borges (1894, RJ – 1989, RJ), fundadora do Foto Clube Brasileiro, no Rio de Janeiro, e as cerca de 10 mulheres que dirigiram estúdios, a primeira em 1908, no Estado de São Paulo, e em 1910, na capital. As lentes estrangeiras que chegam ao Brasil no século XIX também são investigadas pelo curador que no caso envolve, além de mulheres, homens com olhares não modernista, pois se afastavam de questões nacionalistas e preocupavam-se com a subjetividade e os registros sociais. 



Mira Schendel- Sem título da série Alleluia, 1965. Monotipia óleo sobre papel de arroz, 45 x 23 cm. Coleção particular.

Um dos pilares da mostra, Anita Malfatti (1889 – 1964, SP), além de pinturas, comparece acompanhada de uma análise crítica do texto “Paranoia ou mistificação?” (1917), de Monteiro Lobato. Para dissecar o texto de Lobato, que ficou célebre pelo impacto que teve na percepção da trajetória da artista, Herkenhoff baseia-se no código civil da época. Lobato era Procurador do Estado e os termos de seu artigo refletiam o pensamento retrógrado que tratava a mulher como cidadão minoritário, parcialmente incapaz de tomar decisões. Já sobre Tarsila do Amaral (1886 – 1973, SP) a exposição apresenta a gênese de uma das obras mais representativas da artista, A Negra (1923), além de desenhos e esboços que mostram o aspecto de colagem que a obra possui.

Em Escultoras há obras a partir da primeira metade do século XX, concebidas por artistas como: Nicolina Vaz de Assis (1874, SP – 1941, RJ), que na cidade de São Paulo tem uma de suas mais conhecidas esculturas, a Fonte Monumental na Praça Julio de Mesquita (1927), é apresentada por algumas de suas peças em bronze e um retrato seu pintado por Eliseu Visconti; Zelia Salgado (1904, SP - 2009, RJ), que foi professora da Lygia Pape, ganhará destaque a partir de alguns momentos de sua obra, como o que faz referência à Unidade tripartida, de Max Bill; Adriana Janacopoulos (1897, RJ – ?) é abordada por suas três principais fases: uma dedicada a cabeças e bustos, realizadas enquanto vivia na França, outra produzida no Rio de Janeiro que reúne sua produção de monumentos e obras públicas e a última de caráter experimental e pequeno formato. 


Nicolina Vaz de Assis- Bastiana, 1941. Bronze fundido, 38 x 18 x 18 cm. Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro.

Maria Martins (1894, MG – 1973, RJ) é um núcleo em si. A curadoria evidencia a ousadia de sua produção ao abordar diretamente o desejo como centro poético de sua obra e a cópula como tema direto de algumas de suas obras, em especial O Impossível (1940). A abordagem de sua produção enfatiza o contraste dessa atitude com o pudor vigente no Brasil naquele período.

Já para Lygia Clarck (1920, MG – 1988, RJ), a mostra constrói um percurso pelas noções poéticas fundamentais de sua obra, com leitura e análise de conceitos como o de “espaço modulado”, enquanto Lygia Pape (1927 – 2004, RJ) é apresentada por meio de alguns de seus vídeos, como Eat me (1975) e Divisor (1967). Tomie Ohtake (1913, Kioto, Japão – 2015, SP) é aproximada da pintura de Alina Okinaka (1920, Hokkaido Japão – 1991, SP), formando o núcleo Mulheres Japonesas, que traz questões sobre o silêncio, a fala e a escrita.

Por fim, produções pouco conhecidas pelo grande público, por partirem de personagens que não vêm do eixo Rio-São Paulo compõem As Amazonas, com Julieta de França (1872 – 1951, PA) e Antonieta Santos Feio, (1897 – 1980, PA), ambas de Belém e com estudos em arte na França e Itália. Julieta de França aproximou-se do Art Nouveau e expôs junto de Rodin, na França. Foi uma das primeiras mulheres a enfrentar o regime acadêmico e disputar os espaços com os homens artistas, sendo duramente criticada por isso. Antonieta Santos Feio usou seu olhar atento para representar figuras e personagens locais e seus costumes. Em um primeiro momento suas obras dedicam-se à figura da mulher engajada no trabalho e na religião e depois passa a mostrar a extração da borracha, universo majoritariamente masculino. 


Antonieta Santos Feio Seringal, c 1940. Aquarela- guache, 45 x 38 cm. Acervo Flavio e Mirtes Nassar. Foto: Motivo.

Serviço:
Exposição: Invenção da Mulher Moderna, Para Além de Anita e Tarsila
Abertura: 13 de junho, às 20h
Até:20 de agosto de 2017
Entrada franca
Local: Instituo Tomie Ohtake