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Farnese de Andrade – Memórias Imaginadas

Artistas: Farnese de Andrade

Curadoria: Denise Mattar

De 23/3 a 25/5

Almeida & Dale Galeria de Arte Ver mapa

Endereço: Rua Caconde, 152 - Jardim Paulista - São Paulo - SP CEP 01425-011

Telefone: (11) 3887-7130

A galeria Almeida e Dale apresenta a partir de 23 de março de 2019 a mostra "Farnese de Andrade – Memórias Imaginadas", com curadoria de Denise Mattar. Figura de singular trajetória nas artes plásticas brasileiras, Farnese de Andrade é autor de uma obra potente, que toma o observador por sua força e fragilidade, ao mesmo tempo em que o perturba com certa morbidez. Na exposição, que reúne cerca de 70 obras, o público poderá conferir de perto as dualidades que marcam sua produção. Em cartaz até 25 de maio de 2019, a mostra é livre e gratuita.

Farnese de Andrade, Sem título, 1981. Técnica mista, 49,5 x 69,8 cm. Foto: Sérgio Guerini.

A exposição lança uma nova luz à obra do artista de origem mineira ao incluir pinturas, desenhos e gravuras e colocá-las ao lado de sua inquietante produção tridimensional, sem paralelo na arte brasileira. Do conjunto apresentado, cerca de 35 trabalhos são bidimensionais, criações de diferentes períodos da vida do artista.

Ganham destaque as enigmáticas figuras femininas, para as quais o artista usava rapazes como modelos. Há ainda uma amostragem de gravuras e desenhos na qual se destaca Censura, obra responsável pela premiação de Farnese em 1970, no Salão Nacional de Arte Moderna (SNAM) - exposição organizada pelo então Ministério da Educação e Saúde e o Museu Nacional de Belas Artes.

Farnese de Andrade, Anunciação e um Pássaro, 1995. Ex-voto, pássaro em metal, fragmento de cabeça de porcelana, redoma de vidro e madeira pintada, 53 x 48 x 23 cm. Foto: Sérgio Guerini.

"Sua gravura é plena de texturas, cortes abruptos e contrastes de luz e sombra. Sem tirar a pena do papel realizava compulsivamente os nanquins intitulados Obsessivos, de quase inacreditável precisão", afirma Denise Mattar. Para realizar seus desenhos a cores, Farnese desenvolveu ainda uma técnica refinada que chamava de "tinta transformada", com um resultado que os aproxima da pintura. "São trabalhos densos, ambíguos, permeados por uma sensualidade perversa e imersos numa sufocante ourivesaria visual", completa a curadora.

Em 1964, o artista, que já era reconhecido e premiado pela qualidade de seus desenhos e gravuras, passa a desenvolver trabalhos aos quais chama de "impressão manual de formas", técnica que consistia na criação de carimbos confeccionados a partir de madeiras carcomidas, sandálias velhas e apetrechos curtidos pelo sol e sal, devolvidos pelo mar. A pesquisa desses materiais, até então utilizados como matrizes para a criação de gravuras singulares, acaba por conduzir Farnese a seus objetos.

Farnese de Andrade, O Anjo Anunciador, 1976. Fragmento de cabeça de anjo, ex-votos [seios], sobre placa de madeira sobre porta de móvel policromado, 68 x 36 x 20 cm. Foto: Sérgio Guerini.

O artista passa então a coletar fragmentos vários, encontrados num primeiro momento na praia e, posteriormente, comprados numa espécie de compulsão. Arrebatado por uma ânsia por capturar sua própria história e mergulhar em suas memórias imaginadas, aprisiona tudo aquilo que é coletado em caixas, gavetas, oratórios e semelhantes, criando assemblages que nunca são dadas por terminadas - processo interrompido apenas com venda das peças, o que o artista fazia a contragosto, recomprando-as por vezes.

A exposição reúne 35 objetos de Farnese, explicitando as várias facetas desta produção singular, comparável à de artistas surrealistas como o alemão Hans Bellmer e o americano Joseph Cornell. São trabalhos de séries emblemáticas, realizadas entre 1966 e 1995, entre as quais Viemos do MarO Anjo AnunciadorAnunciaçãoSão Jorge e Cosme e Damião.

Farnese de Andrade, Viemos do Mar, 1983. Concha, bonecas e resina, 41,5 x 24 x 25 cm. Foto: Sérgio Guerini.

As assemblages de Farnese tratam de questões como a memória, o tempo, a vida e a morte, o masculino e o feminino, o pecado e o castigo. São combinações antagônicas de segredos e revelações, medo e malícia, delicadeza e crueldade. Ao mesmo tempo em que a finitude humana é escancarada por bonecas fragmentadas e cabeças suspensas no ar, a religião é questionada quando faz uso de ex-votos e santos paralisados, cortados, virados de ponta cabeça.

"[Farnese] usa oratórios, caixas e gamelas como continentes de uma turbulência mental mórbida, cujo grito sai abafado. São trabalhos potentes, mas claustrofóbicos, que remexem sem dó nas entranhas do inconsciente, e por isso fascinam, encantam, assustam e incomodam", afirma Mattar.

Farnese de Andrade, 5 Pensamentos, 1978/82. Ex-voto, madeira, fotografia e resina, 127 x 32 x 19 cm. Foto: Sérgio Guerini.

Quase fazendo eco à sua produção incomum, o trabalho de Farnese tem uma ressonância ambígua junto à crítica de arte. Apreciada por críticos contemporâneos como Tadeu Chiarelli, Helouise Costa, Ana Paula Nascimento, Rodrigo Naves, Charles Cosac, entre outros, ele é, quase sempre, excluído das grandes retrospectivas da arte brasileira. "Em parte, isso ocorre porque grande parcela da crítica atribui apenas às tendências construtivas o encontro de um caminho próprio para a arte brasileira, mas pesa também uma questão mais antiga: a rejeição à matriz surrealista, que acontece desde de Mário de Andrade", pontua a curadora.

Reunindo obras de coleções particulares do Rio de Janeiro, Bahia, Minas Gerais e Pernambuco, a exposição "Farnese de Andrade – Memórias Imaginadas" oferece ao público uma rara oportunidade para a apreciação de um conjunto integral da obra do artista, possibilitando um mergulho em seu mundo de fantasias construídas.

Farnese de Andrade, Sem título, 1981. Técnica mista, 49,5 x 69,8 cm. Foto: Sérgio Guerini.

Sobre o artista
Nascido em Araguari (MG), em 1926, Farnese de Andrade é acometido por tuberculose ainda muito jovem, aos 18 anos de idade. A doença lhe dá uma aposentadoria precoce e ele então começa a estudar desenho com Alberto da Veiga Guignard, na Escola do Parque, em Belo Horizonte, onde então vivia com sua mãe, Maria de Andrade, a dona Mariquinha.

Em 1948, depois de um período afastado para um tratamento de saúde, conclui o curso de desenho e muda-se para o Rio de Janeiro. Lá, descobre não estar completamente curado da tuberculose e interna-se, por quase dois anos, no Sanatório de Correas, em Petrópolis, no Rio de Janeiro.

Curado da doença, passa a fazer ilustrações para jornais, revistas e livros. Em 1959, estuda gravura em metal com Johnny Friedlander e Rossini Perez, no ateliê do Museu de Arte Moderna do Rio. Participa de várias edições do Salão Nacional de Arte Moderna, da VI, VII e IX Bienal de São Paulo, XXXIV Bienal de Veneza, II Bienal da Bahia, entre outras.

Em 1970, recebe o Prêmio de Viagem ao Exterior no Salão Nacional de Arte Moderna e reside em Barcelona por 4 anos. No retorno ao Brasil, intensifica sua produção tridimensional, que viria a se tornar a sua marca.

Farnese de Andrade falece em julho de 1996, aos 70 anos de idade, no Rio de Janeiro.

Farnese de Andrade, Sem título, 1975. Técnica mista, 69,3 x 49,4 cm. Foto: Sérgio Guerini.

Serviço
Exposição: "Farnese de Andrade – Memórias Imaginadas", com curadoria de Denise Mattar.
Datas e horários: Abertura dia 23 de março, sábado, das 11h às 14h. Em cartaz até 25 de maio de 2019. De segunda a sexta, das 10h às 19h.
Local: Galeria Almeida e Dale | Rua Caconde, 152 - Jardim Paulista, São Paulo.
Entrada livre e gratuita.