AGENDA DAS ARTES

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Educação como matéria-prima

Artistas: Vários

Curadoria: Felipe Chaimovich e Daina Leyton

De 27/2 a 5/6

MAM - Museu de Arte Moderna Ver mapa

Endereço: Parque Ibirapuera, Portão 3 - Ibirapuera

Telefone: (11) 5085-1300

“Um museu de arte tem como missão fundamental a educação”. Com essa premissa e o objetivo de reafirmar o caráter pedagógico das experiências artísticas no mundo atual, o MAM - Museu de Arte Moderna de São Paulo abre a mostra "Educação como matéria-prima" em 27 de fevereiro de 2016. Apresentada na Sala Paulo Figueiredo, a exposição marca os 20 anos do setor Educativo do MAM e reúne artistas nacionais e internacionais que utilizam processos educativos nas produções. São exibidos trabalhos inéditos de Amilcar Packer, Evgen Bavcar e Stephan Doitschinoff ao lado de obras de Luis Camnitizer e Graziela Kunssch, além de duas instalações ligadas ao tema, que pertencem ao acervo do museu, dos artistas Paulo Bruscky e Jorge Menna Barreto. Durante o período de exposição, todas as obras serão ativadas e trabalhadas ao vivo com o público.

Com curadoria conjunta de Felipe Chaimovich, curador do museu, e Daina Leyton, coordenadora do setor Educativo do MAM, a exposição visa a mostrar que os museus devem atuar como espaços de educação, colaborando com o público por meio de ações pedagógicas que possibilitem reflexões e gerem motivações para ações e intervenções na sociedade. “A mostra permite que os visitantes vivenciem proposições dessa natureza, tanto no contato com as produções exibidas pelos artistas como na programação desenvolvida especialmente para a mostra, que abrange participação e pensamento crítico, ” explica Chaimovich. 

Evgen Bavcar, Sem título, 1946 (Divulgação)

Em 20 anos de existência, o setor Educativo do MAM realiza um trabalho permanente de pesquisa e formação de público. No contato com a arte, visitantes refletem sobre questões do cotidiano. “Nos espaços educacionais prevalece a noção de que educar é transmitir conteúdos, o que faz com que alunos ocupem a maior parte do tempo com informações distantes da realidade, deixando assuntos essenciais em segundo plano. Grande parte das abordagens educativas não incluem identidade, conflitos, relacionamentos, diversidade e outros temas fundamentais para o desenvolvimento pleno dos educandos”, explica Daina. “Assim, em vez de promover autoconhecimento e reflexão sobre o contexto social, formamos pessoas cada vez menos protagonistas da própria história e com dificuldades de perceber que podem atuar para transformação da realidade”, completa a curadora.

Dando início a mostra, a obra O museu é uma escola, de Luis Camnitzer, exibe em letras garrafais a frase “O museu é uma escola: o artista aprende a se comunicar; o público aprende a fazer conexões” colada na fachada de vidro do MAM, assumindo a afirmação na identidade visual da instituição e estimulando o pensamento entre visitantes e frequentadores do Parque Ibirapuera. Cartões postais com a frase também serão confeccionados para venda na Loja do MAM, ampliando as pessoas atingidas. Camnitzer afirma que a obra é um acordo que o museu estabelece: se ele é uma escola, assim deve ser, e o público tem direito de cobrar caso o espaço não exerça a função pedagógica. Vários museus já adotaram a frase nas paredes entre eles o MALBA (Buenos Aires) e o Guggenheim (Nova York). “Com esse trabalho, potencializamos a consciência no imaginário coletivo sobre a função educativa dos museus e ainda fomentamos o diálogo com diferentes públicos, ” afirma Chaimovich. 

Evgen Bavcar, Sem título, 1946 (Divulgação)

Camnitzer ainda apresenta mais duas obras na mostra. Em Exercícios, proposições de experimentações convidam o visitante a refletir sobre diferentes instâncias da vida e da arte e contribuir com a exposição ao adicionar as produções e respostas nas paredes da sala expositiva, em ordem aleatória. Já em Livro: Anotações, o artista se apropria de um caderno escolar para explorar questões de liberdade, conhecimento e produção artística. Elementos presentes em tradicionais modelos de cadernos brasileiros como folhas pautadas, capa azul, etiqueta branca de borda vermelha e carimbo são apropriados. Num jogo de ilusões, sobrepõem-se uma folha pautada ao desenho do céu, gerando possibilidades interpretativas.

O fotógrafo e filósofo cego Evgen Bavcar escreve artigos sobre “Museu de outra percepção”, um museu não concebido na lógica normativa, que considera um “padrão médio” de visitantes, e sim um espaço em que diversas realidades são contempladas. Esloveno radicado em Paris, o artista considera deficientes como “pessoas privadas de liberdade”, sendo uma das maiores privações a falta de acesso ao universo cultural. Para a exposição, ele exibe a série de fotografias que realizou no Museu Arqueológico Nacional de Nápoles, na Itália, onde foi permitido tocar as obras. Nas imagens, são acrescentadas frases em braile para que o público cego se aproprie e os demais criem curiosidade de descobrir. O trabalho mostra como as possibilidades estéticas se ampliam quando é possível olhar de perto, expressão cunhada por Bavcar sobre tatear as obras com as mãos e o corpo, o que não significa simplesmente “tocar” para os cegos, mas sim olhar de perto uma vez que os olhos são o corpo todo.

 Em Constelações, obra idealizada por Amilcar Packer, diversos objetos do uso cotidiano como garrafas, embalagens plásticas e outros elementos são expostos no teto da sala, junto a um mapeamento das origens desses produtos e de suas terminologias. O trabalho mostra a percepção de que tudo pode ser objeto de aprendizagem, ou seja, que podemos e devemos aprender com o mundo. Roldanas no formato de um varal permitem que os visitantes levantem e baixem esses objetos fazendo a própria curadoria e criando a própria constelação.

Evgen Bavcar, Sem título, 1946 (Divulgação)

Nas duas telas inéditas da série Domino, Não Sou Dominado, o paulista Stephan Doitschinoff apresenta indagações por meio de narrativas simbólicas. Barcos cheios de livros afundando, luas quadradas cravadas de bandeiras, indústrias quebrando e arranha-céus desmoronando aludem à possível ruptura de um sistema rígido voltado à preservação de valores e à restrição da liberdade de escolha e das necessidades de desenvolvimento humano.

A artista Graziela Kunsch participa com a obra Urbânia 5, revista desenvolvida para a 31a Bienal de São Paulo, em parceria com a educadora Lilian Kelian em 2014. A cada edição, a publicação elege um foco e experimenta estratégias editoriais. Urbânia 5 veicula textos sobre práticas de educação contra hegemônicas e projetos que buscam reinventar a escola ou criar contraescolas, pensando de maneira crítica e emancipadora. 

Do acervo do museu, as duas obras selecionadas possibilitam deslocar a equipe educativa para o espaço expositivo visando ampliar a interação dos funcionários com o público. Na instalação Café Educativo (2007/2014), de Jorge Menna Barreto, é criado um ambiente de café entre as obras e o atendimento é feito pela equipe do setor, que também oferece livros, jornais, revistas e catálogos. O conceito quebra o lugar comum da obra de arte, assim como a relação do espectador com ela. A diferença fundamental é que os atendentes são, além de garçons, educadores aptos a conversar sobre a exposição. “Sendo um site-specific, a obra adquire novos formatos e significados de acordo com cada mostra e contexto no qual é exposta, dialogando com a proposta curatorial e envolvendo diretamente o pessoal da área”, explana o curador.

O outro trabalho escolhido, entre as cerca de cinco mil obras do acervo do MAM, é Expediente, do artista conceitual pernambucano Paulo Bruscky, em que um funcionário do museu trabalha em tempo integral, com mesa, computador, telefone e demais equipamentos no espaço expositivo. A proposta para esta mostra em especial é que a maior parte da equipe de educadores transfira os postos de trabalho para o meio da exposição, fortalecendo o conceito da obra, repensando o lugar do corpo no dia a dia e, por fim, aumentando a relação do público com os educadores.

Stephan Doitschinoff, Domino, não sou dominado (Divulgação)

serviço
Exposição: "Educação como matéria-prima", com curadoria de Felipe Chaimovich e Daina Leyton.
Datas e horários: Abertura dia 27 de fevereiro, às 11h. Em cartaz até 5 de junho de 2016. De terça a domingo, das 10h às 17h30 (permanência até as 18h).
Local: MAM - Museu de Arte Moderna de São Paulo | Parque do Ibirapuera (av. Pedro Álvares Cabral, s/no - Portão 3).
Entrada: R$ 6,00 - gratuita aos domingos.