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Arquiteto faz de sua obra a sua moradia na Casa do Povo

Artistas: Jakub Szczesny

Curadoria: -

De 15/10 a 6/11

Casa do Povo Ver mapa

Endereço: Rua Três Rios, 252 - Bom Retiro

Telefone: (11) 3227-4015

O arquiteto polonês Jakub Szczesny constrói em São Paulo uma casa temporária no terraço da Casa do Povo na qual viverá durante três semanas. Em sua moradia efêmera, Jakub pretende provocar reflexões sobre as migrações e as atuais políticas de refugiados. Para isso, a casa será ainda ativada por intensa programação que inclui projeções, performances, celebrações, além de encontros de ativistas, artistas, estrangeiros, refugiados e outros desarraigados. Durante o mesmo período, será lançada a publicação O Quão polonês você se sente hoje? Percursos e desvios poloneses em São Paulo, editada pela Casa do Povo e co-editada pela Narrativa Um. O volume traz a participação da heterogênea comunidade polonesa na formação da cidade e de seu imaginário. 

O projeto Refúgio polonês, a partir da casa provisória, de uma plataforma de atividades e da publicação, sugere questionar os rótulos culturais em uma época de crescimento de políticas xenófobas. As indagações sobre o que é ser polonês, o que é ser brasileiro, fundamentam-se na ideia de que todas as construções identitárias são sempre resultados de processos heterogêneos.

O projeto é realizado conjuntamente pela Casa do Povo, Stowarzyszenie Artanimacje e Adam Mickiewicz Institute, sob a marca Culture.pl, como parte da programação da Polônia no Brasil.

1/ A casa – uma utopia concreta
A base do projeto é a construção deste “refúgio” projetado por Jakub Szczesny instalado no terraço de mais de 400 metros quadrados, fechado há mais de 30 anos, da Casa do Povo – instituição criada por imigrantes e refugiados judeus, na sua maioria poloneses e progressistas, Estes imigrantes imaginaram e tornaram real o projeto da Casa do Povo como um espaço para acolher associações, iniciativas e atividades que já existiam no bairro do Bom Retiro. Agora, mais de 60 anos depois, um artista e arquiteto vindo da mesma terra que a maioria desses imigrantes, retoma características originais da Casa do Povo e transforma o seu terraço em uma “utopia temporária”. Abrigo, casa, tenda, esconderijo, puxadinho, retiro, succah, ninho; o Refúgio polonês é o espaço onde o próprio Szczesny resolveu morar por um mês e ficará aberto ao público nos horários de funcionamento da Casa do Povo. Em sua moradia temporária, Jakub utiliza móveis usados garimpados em lojas do bairro, objetos que já vem carregados de memória. Os panos e tecidos que são a base dessa casa, podem facilmente ser desmontados, colocados em uma mala, para logo serem reerguidos em outro lugar, recriando assim o refúgio.

O interesse de Jakub por moradias mínimas projetadas levando em conta diversas limitações, já é anterior a esse projeto e extrapola questões meramente formais ou técnicas. Na Keret House (2012) – um de seus trabalhos mais importantes e conhecida como “a casa mais estreita do mundo”  –, o objetivo não era apenas fazer uma pequena moradia, mas sim criar, no coração de Varsóvia, uma intervenção discreta que desse continuidade entre tempos e espaços divididos, costurando entre si dois prédios separados por um vão de apenas 1,20m. Um desses prédios foi construído antes da Segunda Guerra Mundial, enquanto o outro foi erguido logo após o fim da guerra, ocupando o exato local onde os nazistas haviam construído a ponte que conectava o grande e o pequeno gueto. Foi lá que os judeus foram mantidos isolados e assassinados pela ocupação alemã, e também onde houve o famoso levante em abril de 1943 – o “Levante do Gueto de Varsóvia”. A Keret House, que carrega no nome uma homenagem ao escritor israelense de origem polonesa Edgar Keret, segue ativa até hoje e funciona tanto como um lugar de moradia, como uma forma de habitar o tempo nas frestas abertas pelas feridas da história.

Destaques da programação
A instalação será ativada como um lugar de encontros. Em sua casa temporária o arquiteto receberá uma programação contínua envolvendo temas urgentes relacionados a fluxos migratórios, o acolhimento precário de refugiados no Brasil e no mundo assim como temas ligados a uma marginalidade. A programação é híbrida, dinâmica e crítica, dividida em performances, projeções, celebrações ou simples encontros entre artistas, estrangeiros, refugiados e tantos imigrantes que habitam o Bom Retiro.

Refúgio polonês convida GRIST (Abertura)
Data: 15 de outubro horário: 13h-18h
GRIST, Grupo de Imigrantes e Refugiados em situação de rua irá organizar a abertura do Refúgio com debates, concertos e refeições coletivas. Todo o lucro arrecadado com a festa será destinado às atividades do GRIST. 

Projeção de Guiury -  Mariana Lacerda
Data: 20 de outubro horário: 20h
A diretora pernambucana apresenta ao público um primeiro corte do filme Guiury que consiste em uma conversa entre a fotografa Claudia Andujar e o filósofo Peter Pal Pelbart, ambos nascidos na Hungria. Eles conversam nas suas quase esquecidas línguas maternas para relembrar da infância da Claudia. A língua esquecida se torna o território da memória.

Refúgio polonês convida Mexa
Data: 22 de outubro horário: 11h O coletivo Mexa une “ativistas, artistas, cadeirantes, sem teto, negras e transexuais” e atua por meio de diversas nos centros de acolhida para moradores de rua no Bom Retiro, em particular no Florescer, o primeiro centro de acolhida de São Paulo exclusivo para mulheres trans em situação de rua. Luta por um mundo de mais tolerância da diversidade. As práticas artísticas são umas das suas ferramentas de luta. Na ocasião, uma performance será realizada por seus integrantes a partir de relatos e histórias de vida pessoais. 

Projeção de Ha terra! - Ana Vaz
Data: 23 de outubro horário: 16h
A diretora portuguesa cria um espaço poético que une a história do cinema com as lutas do sem terras no Brasil.

Projeção de Ellis Island - de Georges Perec e Robert Bober
Data: 03 de novembro horário: 20h
Projeção do filme de Robert Bober a partir do texto de George Perec que reflete sobre a noção de migração a partir da ideia de não-lugar, usando como elemento central a Ilha Ellis, porta de entrada e local de passagem de inúmeros imigrantes que chegaram aos Estados Unidos no século XX.

A programação completa pode ser acompanhada pela página do facebook.com/casadopovoxxi.
O programa do Refúgio Polonês é desenvolvido pelo arquiteto Jakub Szczesny junto de Francisco Daviña e Benjamin Seroussi da Casa do Povo. 

O livro “O Quão polonês você se sente hoje? Percursos e desvios poloneses” 
A publicação  –  editada pela Casa do Povo (Benjamin Seroussi e Mariana Lorenzi) e pela Editora Narrativa Um, com textos do historiador Roney Cytrynowicz, do urbanista Renato Cymbalista e com introdução do filósofo Peter Pál Pelbart – acompanha o projeto Refúgio Polonês como um todo e opera também como um (des)guia da participação da comunidade polonesa na formação de São Paulo, apontando assim para o devir judaico dos poloneses, a história polonesa dos judeus, a presença polonesa em São Paulo e a sobreposição de territórios numa cidade fértil em criação de outros espaços possíveis.

O livro, que será lançado durante o projeto, divide-se por temas que se articulam a partir de referências, construções, marcos arquitetônicos, personalidades, lugares de memória ou heranças diversas desta comunidade imaginada pelos editores. A partir das contribuições de imigrantes e seus filhos, e de suas múltiplas identificações (um shtetl, uma língua, uma comida, um lugar, uma terra ou um imaginário), cada parte tenta desconstruir rótulos culturais, sejam eles poloneses ou brasileiros, tornando essa presença mais rica e complexa.

O primeiro dos cinco capítulos, Construindo a cidade, foca na trajetória de alguns arquitetos, engenheiros e empreiteiros poloneses que participaram da construção da cidade de São Paulo, enquanto o segundo, Memória(s) na cidade, dedica atenção especial a lugares carregados de subjetividade e muitas vezes imateriais, desvelando uma cidade-palimpsesta, formada por camadas de lembranças e esquecimentos. Já Bom Retiro, pequena Polônia retrata o tradicional bairro de imigrantes que concentra muitas referências à presença polonesa em São Paulo, e onde a Casa do Povo está localizada. Ainda mais abstrato, o capítulo Poéticas polonesas se arrisca em destacar a herança de artistas poloneses que integram acervos públicos ou coleções privadas, que desenvolveram obras públicas ou que se envolveram em práticas de grupos teatrais na cidade. Por fim, Minha Polônia convida filhos e filhas, netos e netas de poloneses a escrever sobre suas “Polônias internas”, herdadas ou rejeitadas, próximas ou distantes, reais ou imaginárias. E, caso o leitor se interesse em viver mais de perto uma genuína experiência polonesa paulistana, o livro oferece uma sessão de “Serviços” com indicações onde comer, cantar e rezar em polonês na cidade de São Paulo.

Serviço:
Refúgio polonês
De 15 de outubro a 06 de novembro de 2016
A instalação fica aberta durante o horário de funcionamento da Casa do Povo, de terça a sábado, das 14h às 19h e de acordo com a programação do projeto. Entrada gratuita.
O projeto é realizado conjuntamente pela Casa do Povo, Stowarzyszenie Artanimacje e Adam Mickiewicz Institute, sob a marca Culture.pl, como parte da programação da Polônia no Brasil
Culture.pl é a marca principal do Instituto Adam Mickiewicz - uma instituição cultural nacional de promoção da Polônia e da cultura polonesa em todo o mundo. Até agora, exibiu o melhor de teatro polonês, design, artes visuais, música e cinema em 70 países, atingindo mais de 52,5 milhões de pessoas. Visite o site Culture.pl/brasil para novas informações sobre os mais eventos culturais poloneses no Brasil, juntamente com uma variedade de biografias de artistas, resenhas e ensaios.
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